Hoje não dormi nada, ou antes, dormitei um pouco logo ali a seguir ao lanche, mas desde o jantar que não preguei olho e desta vez nem foi pelas cãibras nas pernas, que a esta altura já me habituei. Na realidade foi por ter ouvido o Rodrigo Guedes de Carvalho a apresentar as imagens das zonas balneares neste fim-de-semana.
Áhhh a dor, áhhh o horror, áhhh a sensação acutilantemente decorativa que caracteriza aquele que é o último a descobrir a verdade, normalmente nua. Todo o meu corpo tremeu, e não da forma que gosto, quando descobri que afinal ando a confinar de forma errada, e pior, sem as benesses que afinal todos os outros têm. Será que isto só me aconteceu a mim, ou será que há mais como eu? Inquieto, irrequieto, e um sem número de adjectivos e pronomes correm dentro da minha cabeça, mas nada disto me detém, sinto-me como o Rambo debaixo de fogo, numa serenidade aparente só contrastada pela ânsia de entrar em acção. Mas o que fazer, o que preparar, qual o meu plano de acção. Abro as minhas velhas, fidedignas e boas fontes de acção. Do Facebook ao Google, sem esquecer os clássicos. Rapidamente vejo e sinto o meu futuro, ahhh uma epifania apodera-se de mim, sinto-me como que um eleito, um líder, um farol desta população. De Bakunin o Anarquismo, de Malatesta o Voluntarismo, e de mim a força para reunir sobre uma bandeira todos estes espíritos perdidos que vagueiam sem direcção. Deixaremos fora todo tipo de hierarquia e dominação que nos quer prender em casa com este pseudo coisó-virus, cada um tem de ser livre de fazer o que quer, de deitar fora os deveres impostos pelo Estado. Acabaremos já com este governo que nos obriga a pensar e proteger os outros e a usar máscaras para nos escondermos e sermos responsaveis, e que quer que cada um seja polícia na sua rua, prédio ou porta… Sim sim, o segredo está na defesa da autogestão, cada um por si, sem medo e sem vergonha, sempre tendo em vista a constituição de uma sociedade libertária onde os indivíduos se possam associar livremente. É isto, descobri finalmente a minha razão de viver, vou lutar para que todos possam sair de casa, com ou sem cães nas telas, vou lutar para que cada obeso possa correr diversas horas na rua, vou lutar para que as máscaras sejam abolidas e possamos saber com quem falamos na rua ao invés de levantarmos a mão saudando todos os que nos cumprimentam, vou lutar por abrir as praias, os parques e os jardins porque o sol e o ar puro curam tudo e animam o pessoal, vou acabar com aqueles preguiçosos dos médicos e enfermeiros que só gostam de aplausos e que só querem alterar o nosso ADN criando caudas nos seres humanos e, assim como assim, não há nada como um café com casca de limão para curar tudo. Já tenho tudo pronto, manifesto, bandeiras, hashtags, até um púlpito e cartazes da nova Liga dos Otários, Retardados, Parvos, Anormais e Sem-vergonha… LORPAS, LORPAS, LORPAS, já ouço as multidões a gritar. LORPAS, LORPAS, LORPAS… É o delirio.. Do púlpito eu grito QUEM SOMOS?, e a audiência em delírio, LORPAS.
QUEM SOMOS? LORPAS.
QUEM SOMOS? LORPAS… De repente ouço a porta de casa a bater, era o meu passarinho com a mãe e o miúdo. Vai de certeza juntar-se à multidão…



























































