Crónicas em Papel Higiénico – 5

Hoje não dormi nada, ou antes, dormitei um pouco logo ali a seguir ao lanche, mas desde o jantar que não preguei olho e desta vez nem foi pelas cãibras nas pernas, que a esta altura já me habituei. Na realidade foi por ter ouvido o Rodrigo Guedes de Carvalho a apresentar as imagens das zonas balneares neste fim-de-semana.
Áhhh a dor, áhhh o horror, áhhh a sensação acutilantemente decorativa que caracteriza aquele que é o último a descobrir a verdade, normalmente nua. Todo o meu corpo tremeu, e não da forma que gosto, quando descobri que afinal ando a confinar de forma errada, e pior, sem as benesses que afinal todos os outros têm. Será que isto só me aconteceu a mim, ou será que há mais como eu? Inquieto, irrequieto, e um sem número de adjectivos e pronomes correm dentro da minha cabeça, mas nada disto me detém, sinto-me como o Rambo debaixo de fogo, numa serenidade aparente só contrastada pela ânsia de entrar em acção. Mas o que fazer, o que preparar, qual o meu plano de acção. Abro as minhas velhas, fidedignas e boas fontes de acção. Do Facebook ao Google, sem esquecer os clássicos. Rapidamente vejo e sinto o meu futuro, ahhh uma epifania apodera-se de mim, sinto-me como que um eleito, um líder, um farol desta população. De Bakunin o Anarquismo, de Malatesta o Voluntarismo, e de mim a força para reunir sobre uma bandeira todos estes espíritos perdidos que vagueiam sem direcção. Deixaremos fora todo tipo de hierarquia e dominação que nos quer prender em casa com este pseudo coisó-virus, cada um tem de ser livre de fazer o que quer, de deitar fora os deveres impostos pelo Estado. Acabaremos já com este governo que nos obriga a pensar e proteger os outros e a usar máscaras para nos escondermos e sermos responsaveis, e que quer que cada um seja polícia na sua rua, prédio ou porta… Sim sim, o segredo está na defesa da autogestão, cada um por si, sem medo e sem vergonha, sempre tendo em vista a constituição de uma sociedade libertária onde os indivíduos se possam associar livremente. É isto, descobri finalmente a minha razão de viver, vou lutar para que todos possam sair de casa, com ou sem cães nas telas, vou lutar para que cada obeso possa correr diversas horas na rua, vou lutar para que as máscaras sejam abolidas e possamos saber com quem falamos na rua ao invés de levantarmos a mão saudando todos os que nos cumprimentam, vou lutar por abrir as praias, os parques e os jardins porque o sol e o ar puro curam tudo e animam o pessoal, vou acabar com aqueles preguiçosos dos médicos e enfermeiros que só gostam de aplausos e que só querem alterar o nosso ADN criando caudas nos seres humanos e, assim como assim, não há nada como um café com casca de limão para curar tudo. Já tenho tudo pronto, manifesto, bandeiras, hashtags, até um púlpito e cartazes da nova Liga dos Otários, Retardados, Parvos, Anormais e Sem-vergonha… LORPAS, LORPAS, LORPAS, já ouço as multidões a gritar. LORPAS, LORPAS, LORPAS… É o delirio.. Do púlpito eu grito QUEM SOMOS?, e a audiência em delírio, LORPAS.
QUEM SOMOS? LORPAS.
QUEM SOMOS? LORPAS… De repente ouço a porta de casa a bater, era o meu passarinho com a mãe e o miúdo. Vai de certeza juntar-se à multidão…

Crónicas em Papel Higiénico – 4

Foi uma grande noite esta que decidi passar no meu pequeno sofá. Só sabemos mesmo aquilo que nos faz falta quando somos obrigados a voltar à vida normal e boa do pré-coisovirús. Ai as saudades deste meu pequeno recanto místico, do meu pequeno altar de sabedoria, da minha pequena ara cerimonial onde diariamente praticava um tipo de yoga só ao alcance de alguns sábios, eremitas e outros contorcionistas. Mas foi uma grande noite, repito, e permitiu-me pensar a fundo naquilo que gostaria mesmo de fazer da minha vida, e do tempo entre entre ela e este confinamento. Lembrei-me de um comentário do meu amigo João Luís Ferreira “…de volta ao confinamento com o repórter no local tal Artur Albarran a ver (quase) os tanques do Saddam. Tens de pensar num Podcast..”, e foi isso mesmo que fiz. Primeiro confesso que pensei nos tanques do Saddam e no jeito que agora me dava ter ao menos um, mas acho que o meu passarinho não aprovaria. E com razão, aquilo não tem isofix para a cadeira do miúdo. Pensei no Podcast, depois de perguntar ao tio Google o que raio era aquilo, e gostei do que li. Um sítio onde possa dizer o que me apetece, e que possa ouvir o que digo, e tanto que eu tenho para dizer, e para ser sincero gosto bem de me ouvir, tenho uma voz bem colocada, radiofónica, sensual. Ele há dias em que eu próprio me entusiasmo só com a minha voz.. Ahhh, mas um Podcast estará ao nível da minha pessoa, da minha voz, do meu appeal? Penso mais alto, quem sabe num programa da manhã num canal generalista, ou num talkshow literarió-cervejeiro, ahhhh já sei, quero um programa tipo Cristina Ferreira. Já me vejo, a engolir as vertigens para tirar fotografias no tecto do Palácio de Cristal, assim num trapinho esvoaçante, provocante…”Óhhh Diogo, que fazes com a roupa da minha mãe?, “Rais te parta, que não páras.”, “E sai da varanda por favor..” Acho que o meu passarinho entendeu o meu destino….

Crónicas em Papel Higiénico – 3

Hoje resolvi unilateralmente, auto-espontaneamente e até por vontade própria seguir as indicações do meu passarinho e pernoitar em casa da minha mãe. Se bem ela pensou, melhor eu o fiz e cheio de vontade, vejam bem. Aliás, tirando as três horas da preparação da bagagem para esta noite, não demorei mais de sete a interiorizar esta minha decisão pessoal e a pôr pernas ao caminho, que isto de furar confinamentos e recolheres obrigatórios vai contra a minha maneira de ser. Mas um homem é uma pessoa humana, e tem de traçar uma linha mesmo que com isso ponha em causa o sossego e o bem estar de quem ama. O meu passarinho vai sofrer com a minha ausência, mas isto só lhe vai fazer bem. Só tenho medo que, com a dor da minha ausência, ela e a mãe bebam todas as garrafas de espumante que aproveitaram para retirar da despensa numa tentativa de esquecer a minha decisão arrumando a casa.
Ahhh, as saudades de voltar à casa materna, ao meu quarto, às minha lembranças de jovem, aos meus jogos, brinquedos, livros, e até alguma banda desenhada de cariz mais erótico-badalhoco que um amigo pediu para guardar… Minha mãe está um pouco apreensiva, com certeza falou com o meu passarinho e, como mulher que é, assumiu as suas dores. Mas estou resolvido a relaxar, e não perco tempo a revisitar todas essas memórias. Já dizia Einstein que as melhores ideias surgem quando estamos relaxados, e eu confirmo. No meio de tantas lembranças, tantas histórias, tantas vinhetas surge-me a mais natural e importante ideia de há muito tempo. Porque não fazer da minha vida uma banda desenhada, uma obra prima do anime, roçando o hentai, sem esquecer as aldeias que lutam hoje e sempre contra o invasor, e tudo em latim para ser mais intenso. Passo a noite a desenhar vinhetas, a aprofundar o traço, a caricatura, uns “cave canem” aqui, uns “timeo danaos et dona ferentes” ali, uns “veni, vidi, vici” e uns “lupus non timet canem latrantem” depois, e a obra-prima está pronta. Vou só tomar um banho e descansar um bocado antes de começar a ligar as editoras e aos críticos.
Estou no chuveiro e ouço a minha mãe, entusiasmada, animada, diria mesmo maravilhada com a minha criação, ouço-lhe os impropérios e as exclamações de quem nunca duvidou da minha capacidade artística. Discreto e humilde como sou, deixo-me estar, acabo o banho, visto algo confortável e, surpresa surpresa, tenho o meu passarinho à minha espera no quarto. “A tua mãe ligou-me e hoje ficas no sofá, lá em casa”, “Que raio é aquilo na parede??!!!”, “Queres vestir qualquer coisa, por favor???”…Eu sabia, estas horas sem mim fizeram mossa, mas não quer dar parte fraca..

Crónicas em Papel Higiénico – 2

Não começou bem este novo reconfinamento. Apesar de mal refeito das vergastadas no nalguedo de ontem, ainda mantinha a esperança de ser chamado a cumprir os meus deveres maritais, ainda para mais estando eu a sentir-me não só bem desejável como, aqui que ninguém nos ouve, também bem animado após as referidas vergastadas…
Mas nada, já deu para ver que o meu passarinho sofre de stress pós e pré traumático, e está clausura já lhe mexe com as hormonas e, mas sábias palavras de Los Colorados, tanto estás com calor, como estás com frio, tanto é sim como não ( https://youtu.be/1upZz3a-7iM ). Ahhh, mas assim não pode continuar, todas estas críticas e a montanha-russa de sentimentos faz-me sentir despido, e cheio de orgulho ferido digo-lhe “Espera que vou vestir qualquer coisa…”. Ela entende que eu sou um balão de sentimentos neste mundo feito de espinhos e acalmando-se diz “Tens tanto jeitinho, porque não te dedicas às bricolage e aos arranjos?”. É isso, já sei o que vou fazer, vou abrir uma oficina, vou começar com os carros aqui do prédio da mãe do meu passarinho, depois abro aos prédios vizinhos. Mãos-à-obra, em menos de nada já tenho tudo pronto e, pasme-se, até clientes. É verdade que já são muitos anos dedicados às ferramentas, mas nunca pensei que a fama corresse assim e sem dar conta já tinha um contrato com as forças policiais. Estou empolgado, nunca me senti tão útil e sinto que este novo ânimo me dá uma certa sensualidade… “ÓHH Diogo, que estás a fazer com as ferramentas do miúdo??” “Sr. Agente Santos, ele já monta os carros todos, não se preocupe. E tu, vai vestir qualquer coisa que eu vou ligar a tua mãe.!!”
Lá está, são as hormonas a falar. Ela bem sabe que a minha mãe tem mecânico próprio..

Crónicas em Papel Higiénico – 1

Ainda ontem era um homem livre, e hoje querem-me de novo confinado ao azedume de um cubículo, tendo como único resguardo uma piquena máscara de tecido não tecido preparado para as 50 lavagens profiláticas. Sim, que o coiso-vírus, esse meliante, é pouco dado a ambientes assim limpinhos e estéreis.
Para já nada de novo, o papel higiénico ainda resiste, e temos a quantidade certa para sobreviver sem o utilizar durante uns meses, escudando-nos no frescor ardente da água no nalguedo como medida profilática e até contraceptiva para alguns, que não é o meu caso apesar da minha já não pouca idade.
Mas sofro, sofro com estas medidas. Um homem quer-se livre, solto, fresco e fofo “..como una loncha de queso en un sándwich preso” já cantavam as Flos Mariae (https://youtu.be/viQOBLF3AcY), também elas frescas e livres.
Mas sou um homem caraças, e ninguém me diz o que posso ou não fazer. E se eu quiser correr e cantar como “uma vaca feliz”? AHHH, o ímpeto que se cria quando juntamos a fome à vontade de comer. Se bem o pensei melhor o fiz, e em pouco tempo já eu corria leve, desnudo e livre como só um homem pós 45 sabe ser. Rapidamente as amizades se criaram, e se no início era só uma vaca feliz, de repente já havia outras vacas felizes, e elas andam sempre a passear, têm vista para o mar, o pasto verdejante é o seu manjar…. Mas as pessoas andam frias e tristes, e não suportam ver a felicidade alheia sem lhe querer pôr a mão. Não lhes chega açambarcar todo o papel higiénico que podem, como ainda tentam mexer no prato de um homem. E depois dá nisto, autoridades, discussões, mal-entendidos…
“Oh Agente Santos, o meu marido não marrou em ninguém…” sai o meu passarinho em minha defesa. “Óhh senhora, pare de o enxotar que a relva não é sua…” E tu, já para casa que temos de conversar…
Eu sabia, eu sabia, ela não me resiste assim na minha masculinidade…

Diários de um Confinamento – Dia 5

Ainda nem sei se dormi bem ou mal até porque ainda não percebi sei se estou acordado ou ainda a dormir. Hoje seria um dia bom, ou está a ser, ou não, ando meio perdido, mas caso seja, seria um dia bom ou não fosse o último do meu auto-isolamemto auto-imposto neste curto confinamento causado pelo coisó-virús. O meu passarinho resolveu, e bem, que nos devíamos precaver e fazer uns testes e umas análises, e tratou de tudo com que sabe. Ahh a simplicidade de uma análise para garantir a nossa saúde, só é superada quando a colheita é feita no conforto do nosso ninho, e no meu caso do meu sofá. Já tinha experimentado umas vezes antes mas, não sei se devido a factores externos, não consegui aproveitar o momento ao máximo como gosto. Mas hoje foi diferente, senti-me, ou sinto-me ou sento-me na areia da praia, com a água a bater-me nos pés, mas com um gosto amargo que me tomou conta da boca, acompanhada de uma leve sensação de enjoo. Corri em direção ao mar e vomitei, e como um gatilho, tudo ficou colorido e cintilante. Voltei para o sofá, e o suor frio e as pupilas dilatadas deixaram todos assustados, principalmente o meu passarinho que lançava raios verdes que me atingiam e me faziam rodopiar. Ouvia risos de fundo que entravam pela porta da sala, a dançar enquanto se transformavam em bonecos que olhavam para mim e me cercavam vestidos de polícias. Sons de sirenes assustaram-me e perdi a noção do que se passava. Só pensei que seria o agente Santos que voltava para me algemar, mas as minhas mãos estavam a uma grande distância do meu corpo e rosto, e pareciam feitas de borracha. Ouvia sons de vozes ao longe chamando-me, todos eles vindos de elefantes cor-de-rosa e das flores dos vasos. Não fosse confuso, até era giro e fofinho, mas as vozes aumentavam de tom e de intensidade, e vinham acompanhadas de outras sensações mais físicas que não conseguia identificar. Deixei-me estar, estou mais do que preparado para estas situações, e a minha experiência em cenários de guerra e calamidade evoluiu muito desde os primeiros dias da quarentena. Ahh o coisó-virús, o coisó-virús, por um lado foi o melhor que aconteceu a esta família, pois criou em mim um super soldado, um Robocop mas em bom e agora menos gordinho, um Rambo da cidade. Mas as vozes não me largam, estou a ser sujeito a qualquer tipo de sevícias. Áhhh mas isso foi um estalo o que senti agora?? Não é assim que quebram nem o meu espírito nem o meu corpo. Zás e mais um estalo, e as vozes de comando aumentam de tom, e eu nada, bola, nicles, de mim só desprezo…”Diogo, óh Diogo, acorda”, “Tu queres ver que desmaiou por causa da seringa??”, “Oh Pedro, dá-lhe mais um estalo a ver se reage”…Ah, eu sabia, o meu passarinho veio-me salvar, ah! e trouxe ajuda…😁

Diários de um Confinamento – Dia 4

Hoje a noite foi complicada. Entre as muitas cãibras em todos os membros inferiores e superiores, provocadas sem dúvida pelas inúmeras viagens astrais do dia anterior, e a minha novo e melhorado aspecto fisico agora que optei por um brazilian wax auto-imposto e que, no meu caso dada a área pilosa geral, abarcou o Brasil e todos os países vizinhos, e me fez descobrir partes do corpo que eu nem sabia existirem, mas que agora brilham com mais intensidade e cor que uma árvore de Natal. Mas já me conhecem, do copo meio vazio aproveito sempre a melhor parte, e que no caso do copo umas vezes é a parte cheia, outras a parte vazia, e hoje à noite não foi excepção, por isso aliviei o ardor com algumas partes cheias para outras tantas vazias, e recorri às plataformas habituais para me inteirar de como ia a vida neste rochedo redondo a que chamamos Terra, mas que dada a profusão de água seria mais lógico chamar-se Humidade. Qual não é o meu espanto, e reparem que não uso o termo de forma leviana, quando descubro que na prática o dito globo afinal mais não é que uma panqueca onde nas bordas escorrem, qual o xarope de ácer que o meu passarinho tanto gosta, as tais enormes e profusas massas de água, que se perdem ainda não percebi bem onde.. Áhhh, mas algo no meu íntimo já no dizia, já mo fazia sentir, sei lá, havia uma voz interior que me dizia “Dioooogo, o muuundooo não é uma booolaaa”, ou “Dioooogo, as fotos vistas do espaaaço saaaão faaalsas”, ou ainda “Tiraaaa a maáscaraaaa que isto do coisóóóó-vírus é falsoooooo”, “Nããooo te deixeeees enganaaaaar”… Mas a sorte que temos hoje em viver nos dias de hoje, e ter acesso a toda uma panóplia de informações, muitas vezes transmitidas com risco da própria vida por quem por elas é perseguido pelo sistema corrupto e que nos quer manter como cobaias numa gaiola de 5g. Ahá, mas depois de um espírito ser liberto, nada nem ninguém nunca mais o voltam a silenciar e busco a noite toda pelos inúmeros especialistas que nos explicam de forma simples que a Terra só é redonda para quem é quadrado. Ahh, o êxtase do conhecimento deixa-me em pulgas, em brasa, ansioso por levar a todos a verdade de que a Terra está parada. Não se move. A superfície da Terra é plana. Há uma cúpula sobre nós chamada o Firmamento. O sol, a lua e as estrelas estão sob a cúpula do Firmamento. O sol e a lua são mais pequenos e estão mais próximos do que nos dizem. O sol e a lua movem-se em seus próprios padrões sobre a superfície da Terra. Não há planetas. Apenas estrelas no céu. Não há espaço. Não podemos sair da cúpula… Já me vejo, na Praça dos Aliados, ao colo do Garrett que de certeza também era terra-chato e negacionista, liderando uma mole de almas sedentas de verdade, ansiosas pelas minhas palavras, pelas minhas orientações, pelos meus desígnios e previsões…. E todo e qualquer cm2 do meu corpo se arrepia, agora que não há nem um pêlo a cobri-lo porque ficou preso à fita-cola. E todo o meu corpo se arrepia com esta visão, e com este cumprir de um destino, de uma profecia. O meu conceito parece à primeira vista, um barrocócó figurativo, neo expressionista, mas as pessoas aderem, e participam, e não só me ouvem como me respondem com palmas, com gritos, com berros febris, com palavras de ordem “Óhhhh Diogo que fazes na varanda outra vez???”, “Estás nú???”, “E por amor de Deus, cááála-te e vai dormir que são 5 da manhã”. Está visto, a Sofia é uma negacionista dos negacionistas..😁

Diários de um Confinamento – Dia 3

Ahhhh, que bela noite de sono, retemperadora, relaxante, cada vez mais sou uno com este meu ninho de auto-isolamento, espontâneamente imposto por mim claro, e sei lá, dou por mim a sentir-me leve, etéreo, como que a flutuar. Sinto-me como a Shirley MacLaine quando fez as várias formações acerca das viagens fora do corpo, com o seu cordãozinho prateado que a segurava a esta dimensão qual prancha de surf ou bodyboard, ou até estas novas de paddle que são boas para pessoas que, como eu, normalmente não flutuam. Mas sentia-me a flutuar, dizia eu, e feliz, relaxado, sem destino nem pressa nem hora de chegar. Não fosse a falta de um ou outro elefante cor-de-rosa ou dragão chamado Puff, e ainda consideraria a possibilidade de estar sob o efeito de estupefacientes. Mas não, isso não é de todo possível, porque além de ser contra esse tipo de substância, eu não me mexo, estou imóvel, quieto, estático.. Só o meu espírito vagueia, livre, solto, Universal dentro desta sala onde se encontra o meu sofá. Sim, que isto de viagens astrais requer treino, horas de voo, disciplina e muita perícia. Imagine-se se acontece alguma coisa ao cordãozinho, que fica emaranhado noutros cordões de outros viajantes astrais, ou que fica preso no topo de algum edifício ou, pior, imagine-se que ele se quebra e não temos conosco um Waze ou Google Maps da vida que nos permita voltar do espaço profundo que, como quase todos sabem, tem muito dele próprio e poucas referências visuais para uma navegação à vista. E por falar de navegação à vista, reparo numa espécie de papel, memorando ou recado perto do meu corpo físico, e que ainda jaz imóvel no seu leito de confinamento, e tento chegar a ele. Ahhh a falta que faz uma gravidade ou uma atmosfera que nos dê algum atrito para fazermos curvas e travagens. Mas esforço-me, o meu corpo físico já quase a atingir um clímax espiritualo-fisico, já sinto formigueiros, já sinto os músculos tensos, já sinto…bem, já não sinto nada, nem mais, nem pés, e a única parte de mim que rola são os olhos, essa janela da alma e com toda a certeza por onde ela sai quando decide vaguear pelo espaço na sua forma etérea. Mas sim, consigo rolar os olhos, a custo de tão bem que me sinto. E sim, de facto é um papel, e tem rabiscos, serão mantras, serão epístolas, serão versículos corânicos. Forço a vista, foco nas primeiras letras “Diogo, fomos às compras, quando chegar tiro a fita-cola.”. Ahhh, hoje, mal consiga reaver o controlo dos músculos, vou presentear o meu passarinho cumprindo os meus deveres maritais. Ela merece, nunca descura a minha segurança…😁

https://acidentesdestaquarentena.wordpress.com/

Diários de um Confinamento – Dia 2

Hoje não dormi… Não sei se foi a emoção, se a ansiedade que estes dias em torno do coisó-vírus nos criam, se porque todo o meu corpo já não se lembrava das formas desre sofá. Mas um homem não é um rato, e a falta de religiosidade e esoterismo da Sofia deixou-me aborrecido, mas em bom e pleno de compaixão porque sei que é nervosismo de ter voltado a casa da mãe. Mas vá, achei que a melhor forma de demonstrar isso, era voltando a este meu sofá (na foto) e para o meu auto-isolamento auto-imposto. Mas agora tinha a noite toda para mim, e só se fosse tolo é que não a aproveitaria, e mesmo com a falta de acesso às plataformas de notícias como o Facebook e o Twitter, e já tendo passada a hora da Clara de Sousa, sigo sem receio ou dúvidas para a CMTV, e as suas constantes, claras e fidedignas notícias e documentários. E os meus maiores receios confirmam-se, e posso agora afirmar que sim, que já obtive a informação que necessitava. Não a que queria, mas a que necessitava para me preparar para o que aí vinha, e com um bang!!! Ora, neste ano calmo e relaxado, só faltava mesmo que o maior asteróide, após a extinção dos dinossauros, decidisse colidir com a órbita da Terra esta semana. O pior nem é lá a questão do impacto, da nuvem tóxica que aniquilará parte da atmosfera, ou da subida de temperatura média que vai acelerar o degelo das calotes polares e respectiva subida do nível das águas dos mares. Isso são como diz esse outro sábio, peaners. O que me preocupa é a quantidade enorme de extraterrestres que vêem à boleia deste asteroide (ou camuflados por ele), e das suas intenções? Vêem a bem, vêem em paz, vêem para ajudar ou para nos transformar a todos em pequenas baterias eléctricas, capazes de alimentar dois a três telemóveis tipo Nokia 3110, e um destes novos cheios de coisas. Já não me deixo enganar, já há muito que me venho preparando para esta situação, e além de todas reservas e rações de combate não me esqueço de proteger a minha família e as informações que guardo com tanto carinho, e vai daí toca de proteger o ninho com tudo aquilo que tenho à mão, e usando todos os anos de experiência..Mas acho que já vou tarde e nem as proteções e muralhas me protegem das tentativas de me lerem e comunicarem pela mente, ouço-os tão claramente como se estivéssemos na mesma sala, mas resisto, de mim não levam nada, de mim nem a senha da box da NOS, mas não desistem, e insistem, e eu sinto-me a fraquejar…Ahhhhhrghhh, as sondas não, as sondas não, não quero um mini-eu verde e com antenas…..Mas as vozes crescem, já não é uma, são várias, e não entendo o que dizem, os gritos, os grunhidos, os rosnados..”Óhhhh Diogo, pára de berrar!!!”, “Que raio faz a mercearia na sala???”, “Óhhh mãe, o teu genro tirou tudo dos armários”. Estou triste, não cumpri o meu papel de pai e homem-da-casa, os alienígenas já entraram na cabeça da Sofia..😁

Diários de um Confinamento – Dia 1

Ahhh, voltamos alegremente a casa da mãe do meu passarinho. Bem, alegremente no meu caso, porque sinto que à Sofia esta volta a casa da mãe a preocupa e nem a deixa relaxar. De vez em quando ouço-a a resmungar baixinho coisas como “… vão recomeçar as cores de cabeça..”, ou “Desta vez passo-me a sério…”,. Mas eu também sei o que custa deixar de ser o dono do castelo. Ahhh, mas eu venho feliz, amigos a rever, uns dias de relax e boa comida e, apesar de ser difícil cumprir os votos maritais na mesma casa que os pais do meu passarinho, ao menos desta vez o sofá já não é opção e sinto que depois de umas noites sossegadas, a Sofia vai conseguir relaxar do coisó-vírus. Primeira noite e tudo em bom, um belo jantarinho, um filminho logo a seguir, e heis que são horas para dormir. Mas o sono não vem, de certeza pela ansiedade de mais um confinamento, mas deixo-me ficar na sala enquanto todos se deitam. E que boa ideia. Isto do coisó-virús não me sai da cabeça e a cada minuto que passa, menos sono tenho. Resolvo recorrer a esta bela televisão que é tão grande como uma cama, e vou fazendo um zapping por todos os canais informativos e até chegar ao Discovery e ao fantástico “The bloodthirsty gods”, e rapidamente entendo o que falta… Afinal, vivemos numa sociedade em que se perdeu o foco nos valores essenciais, onde já ninguém bebe pelos crânios dos adversários, e onde já ninguém come os corações dos outros porque somos todos vegans…Ah os velhos e bons tempos em que para chover atirávamos os inimigos do tipos de falésias e cronometrávamos a descida. Ok, mas óhh Diogo isso agora não é permitido e tal, não podes andar praí a fazer sacrificios desses. Tenho razão, penso eu, mas também sei que o caminho é por aqui e trato de arranjar bons argumentos para me convencer antes de me deixar convencer por mim próprio de que estou afinal errado, e não certo como acho que estou… Já sei, vou começar sacrificando-me a mim próprio da única forma que sei. Vou me tornar num mártir desta nova era. Penso bem em tudo, ponho no papel as minhas últimas vontades e, inspirado, passo das palavras à acção. Vai doer, mas a força que a minha razão me dá é suficiente para aguentar estoicamente como um espartano daquele filme onde andam todos de mini-saias.. Martelo à mão, pregos à mão, e sem pensar muito mais, desato a pregar-me ao primeiro pedaço de madeira que encontro. Heroicamente aguento a dor como um ser iluminado, e vou recitando as preces que tanto servem para chamar chuva como para acabar com o coisó-vírus. É mais duro do que pensava, choro de felicidade e dor, choro pela certeza da nova era que advirá, choro de dever cumprido, choro…”Já começou Diogo, já começou???”, “Queres parar de fazer barulho e largar as ferramentas do miúdo???, “Rais parta o gajo, eu já sabia!!!!”. É, não entendo, pensei que a minha mulher fosse mais religiosa. Se calhar anda desiludida com a história dos milhões do Vaticano…😁

Dia 51

Da série, acidentes desta quarentena. Hoje nem dormi direito, tal era a excitação de ver levantado por decreto presidencial e policial o meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente, e só me ocorrem as palavras daquele grande autor desconhecido: “Já obtive essa informação”.
Agora é preparar tudo para o meu primeiro café legalmente e higiénicamente autorizado e voltar às vida normal, um pouco à semelhança dos meses AC (antes do coisó-vírus). Mas há um sentimento que vem crescendo dentro de mim e que não sei bem explicar. Agora que voltamos ao dia-a-dia como pessoas normais que fomos, o que eu faço a toda a informação que obtive e estudei? Aos amigos que fiz? Aos desconhecidos que consolei, quanto mais não seja porque viram em mim o ser magnético e quase espiritual em que me tornei nesta viagem quase eremítica que empreendi? Há um certo desconsolo em mim e neste momento um abraço grátis, ou baratinho, dava jeito e faria milagres. Ahh, mas isto é o jeito português a falar, a saudade, o fado, o destino. E quis o destino que a Quarentena acabasse, e assim um homem tem de fazer o que um homem tem de fazer, sem olhar para trás, sem melancolia. Manél, Bomba, Vermelho, Cãozinho e Panda, hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas, digo eu. Ao que o Manél response com um “Tá Bein” dorido, e não fosse ele um tipo fleumático e ver-se-ia uma lágrima no canto do olho, uma lágrima no canto do olho. Mas somos homens ou não, apertamos as mãos e seguimos em frente, certos que mais cedo ou mais tarde nos voltaremos a encontrar. Ainda lhes atiro um falsamente contente “Leiam as próximas Crónicas do Cosmonauta Gaspar, vou escrever uma sobre vocês, e a nossa aventura..” e sigo de mala na mão para o carro. Foi bom, a Sofia está eufórica e tudo correu pelo melhor, sem atropelos, sem confusões. Haja saúdinha, isso é que é preciso.😁

Dia 50

Da série, acidentes desta quarentena. E não é que hoje dormi mesmo bem? Se soubesse disto já teria vindo visitar as instalações da PSP há mais tempo, porque tirando o facto de não ter nem televisão nem telemóvel, o espaço para as pernas é muito maior. E mais, até tenho uma cama. Ok, não é bem aquilo que eu mais sonhava, mas é difícil explicar aos cépticos os fundamentos de um sonhador, e por qualquer razão que ainda não percebi, acharam que o meu sentido de pureza e desinfecção era um atentado ao pudor. Logo eu que ando sempre de máscara e luvas, e até tinha um cartaz numa folha A4 onde me propunha dar, vejam lá, dar abraços de borla a quem a quarentena tenha criado problemas de solidão. Aliás, mesmo nas forças policiais se sente que este isolamento trouxe alguma solidão reprimida, pois não foram nem um nem dois que me olharam de lado, na esperança de que eu os conseguisse abraçar e mitigar esse sofrimento. Ok, as algemas não são simpáticas e não ajudam nestes momentos, mas eu e as algemas temos uma relação menos boa e estas ainda assim não tinham pelo, porque eu sou alérgico ao pelo e ainda desatava a espirrar e na falta do meu cotovelo, teria de espirrar para o cotovelo de alguém. Mas agora estou dividido e sinto-me como a Floribela, mas sem o apoio da mãe árvore a quem pedir conselhos. Por um lado lembro-me o suficiente do Prison Break para aproveitar as minhas tatuagens para criar uma estratégia de fuga, mas por outro estou confortável, tenho boas refeições e na prática tenho um monte de pessoas cuja clausura também está a fazer mal e precisam de acompanhamento e conforto. Ahh esta indecisão entre o direito e o dever, entre nós e os outros, entre a liberdade confinada por uma acção de rua proibida, ou um confinamento livre onde todos esperam a minha voz e consolo.Mas já decidi, sou um homem de família e agora que o meu leito matrimonial volta a estar ao alcance de um olhar, vou arriscar tudo na fuga qual Clint Eastwood em Alcatraz. Se bem o decidi, melhor o concretizo e do nada preparo bóias, barcos insufláveis, roupas novas e alguns documentos. Ahh dizem vocês, mas e a tua identificação??? Tudo previsto, ou não tivesse adquirido nesta quarentena por causa do coisó-vírus uma enciclopédia de ensinamentos entre o Facebook e os Canais de História, Travel, Discovery etc. Primeira tarefa, remover com ácido as impressões digitais. Check, feito. Isto dói para caraças, mas um homem tem de fazer o que um homem tem de fazer, e eu sou um homem com uma missão. As dores são intensas, e além das impressões digitais, acho que nem pelas unhas me descobrem o ADN, mas já falta pouco, já sinto o fresco aroma do orvalho duriense, já estou a um passo da liberdade…”Sr. Trindade, como falado sai dentro de 30 minutos.”, “É favor voltar a vestir macacão laranja.”. Resultou, só espero que a Sofia esteja lá fora, porque não consigo desbloquear o telemóvel nem escrever mensagens. 😁

Dia 49

Da série, acidentes desta quarentena. Hoje acordei dorido, porque já levo 49 dias, ou quase, neste meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente aqui neste pequeno ninho que tenho por leito. Mas acordei esperançado depois de ouvir o Rodrigo Guedes de Carvalho comentar os comentários dos nossos dirigentes. A partir de segunda-feira estamos livres, acabou a clausura e podemos todos voltar a uma espécie de normalidade!!! Mas, e que espécie de normalidade é essa? Custa-me entender este novo mundo sem abraços e beijos. E depois toda a gente tem de andar de máscara. E como os distingo? Vou andar aos beijos a todos? Não vai ser fácil, e começo a antever algumas dificuldades que vou ter de resolver. Depois de tanto tempo em casa não vai ser fácil as pessoas não quererem uns mimos. Se forem como eu, passaram bem a quarentena, sossegados, num estado quase eremítico de introspecção e auto-conhecimento, sem grandes ondas. Mas se forem daquelas pessoas mais activas, devem ter tido problemas diários, e agora vão querer estravazar. E nós, como pessoas humanas que somos, temos de pensar em todos. Aproveitando que a noite foi boa, resolvo pensar naquilo que posso oferecer aos demais. Recorro ao bom velho Facebook que tantas e tão boas notícias e informações nos dá, e leio uma publicação em que alguém diz, um especialista com certeza, que no final desta luta contra o coisó-vírus se vai dedicar a confortar todos aqueles que sofreram de solidão, sem um carinho, sem um abraço. Eu acho isto tudo muito bem, mas e o risco de novos contágios, o risco de voltarmos à quarentena e clausura. Agora que já quase que sinto a liberdade, e anseio pelo meu regresso ao meu leito matrimonial, não me parece bem deitar tudo por água abaixo. Mas a ideia não me sai da cabeça, e fico a maturar se não existiria uma forma de concretizar esta ideia, e na realidade acho que há. Podemos confortar as pessoas, sem trazer os vírus conosco. Ahh que grande ideia esta, e que bem me sinto por poder dar de mim a quem necessita, num misto de orgulho e humildade, claro.
Mas porque começar amanhã ou segunda-feira quando hoje as pessoas já precisam de carinho e já andam na rua a passear. É, não deixes para amanhã o que podes confortar hoje. Com isto em mente recorro ao que tenho e sem mais demoras e sem explicações faço-me à rua. Está fresquito e isso nota-se também na minha pele arrepiada. Ahhh que bem me sinto, noto que as pessoas estranham e não se chegam, é de vergonha com certeza, ou então é fruto da clausura, ficaram assim como os animaizinhos selvagens quando hibernam. Mas pelo menos sabem que eu estou aqui para elas, limpo, desinfetado, puro e autêntico. Os pés já me doem, e o frio vai-se acumulando, mas esta é a minha missão. Confortar as pessoas é o que me aquece o corpo e a alma, ainda que elas não se cheguem. É triste, já não acreditam no amor e no carinho puro, muitos dias em clausura é o que é. Ah, espera, vejo duas pessoas a dirigirem-se a mim, que bom e feliz que estou, e agarram-me, com força de carentes que estão, assim de repente ouço palmas e palavras de incentivo. É isto, o amor quebras as barreiras todas quando nos entregamos a fundo a uma causa, a uma missão..”Estou sim, agente Santos?”, “O meu marido está consigo??”, “Vai quê? Ficar preso uns dias?”, “Óhh mãe, o Diogo está preso. Andava a correr nu pela rua com um cartaz a dizer ABRAÇOS GRÁTIS.”..😁

Dia 48

Da série, acidentes desta quarentena. Hoije fui prà cáma a pensáre neisto. Purque será que tuados gózão com u sutáque du Puârto. Piênso que serón cíúmes, purque num tenhem nada lá diêles. Aqui au miênos suomos assim, hónéstos, de curaçôn na buâca, póbrezínhos, mas siempre en bôm carágo, carágo non caralho. Hoije nem durmi, num sei, custa-me ber éstas nutíciâs que bêenhem de Lisboua, de certiêza pur inbeija das nuossas Fráncezínhas, sópode. Até as nobelas e as séries de deseinhos animádos pró puto fazein o miêsmo, purque acham que falámos tuodos assinhe. Non bus fica bein, atié purque bociês non sábein diziêr nem falár cumo nuós. Purexemplo, MÉÉRDÂ, é diferente de mierda e puraí adiánte que nom bou diziêre asnéiras aquí nu feicebuque.
Maz’aqui que ningueim nus oube, aicho preferíbél diziêre úmas caralhádas a chamare téni a uma sapatílha, ou bíca a um cimbálino. Cá pra minhe, que já fui mais regionalísta, aicho que se queríão mustrare como se fála aquie, ao miênos trazíão um gaijo da Sié, e nom um morcôn do Sule. Nom seie, soua-me a fálso, I depuâis os putos sientem-se ofiêndidinhos e cláro, isso bêsse nu futebóle e nâutras cuoisas. Benhe, vou faláre com os cabrões da TBI e du Canál Pánda (do Pánda e us Caricas), para explicare que na rialidáde debem reber eista situaçãom nu futuro. Tábein, somos mais póbrezeinhos, falámos assinhe, mas tiêmos sentimiêntos, e na dúbida bai tudo a tuoque de caixa, ou de requitó prá grandessíssima páta que os puôs. E ieu sâu um gaijo cálmo, purque se fuâsse a mínha amíga Beatriz, qui’é pédicur’i mánicure, ía túdo com u carálho que os fuôda.. “Fala baixo Diogo.”, “Porque estás a falar assim com a televisão?”, “Deixa o miúdo ver os Super Wings”. Tábisto, a Sofia nom entiênde iêstes probelemas de regionalizaçom..😁

Dia 47

Hoje dormi bem neste meu sofá, reino do meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente como luta de direitos civis em prol da liberdade criativa durante esta quarentena por causa do filho de p*** do coisó-vírus. Como penso que tenho passado, importante é mantermo-nos comunicativos, criativos, activos e mais o raio que os parta a todos mais a pêga da tia deles. Inspirar, expirar, uns alongamentos, um cházinho de camomila e estamos prontos para levar a bom porto este tempo de reflexão, de meditação, de nada para fazer com a quantidade obscena de horas e minutos que o cabrão do dia tem, quem foi o sacana que se lembrou desta? 24 horas, 24? E todas cheias de minutos??? Que raio estava a pensar, hã? A sorte, como minha mulher muitas vezes o diz, ou pensa, ou vá, não gosta muito de admitir, mas eu sou uma pessoa que além de gostar de começar as frases com “Eu sou uma pessoa que..”, eu sou uma pessoa que não se enerva, sou calmo por natureza, uma fonte de harmonia mas em bom e com o seu quê Gandhiesco. Muitas vezes vou na rua e ouço: “Olha ali aquele jovem homem tão bonito e elegante, e com um ar tão tranquilo. Como é careca deve ser Haré Krishna.” Careca? Careca o caralho, careca são vocês e mais a mãe e primas. Tenho por ventura algum sininho na mão? Ando de robe amarelo ocre e sandálias? Havaianas não? Eu estou a deixar crescer a testa… Acho que no geral as aulas de Tai Chi da minha sogra me estão a ajudar. Dois dias por semana, ela e a Sofia ligam o canal desportivo do Facebook, enchem a casa de incenso, afastam os móveis, e em menos de nada estamos todos relaxados…..Todos não né? Porque ninguém relaxa com incenso, há quem seja alérgico não é???? E que movimentos são esses assim devagarinho?? E tenho de respirar? E dobrar os pulsos? Inspirar, expirar, um pouco de meditação, inspirar, expirar, vamos desligar do mundo, voltar para dentro de nós, ouvirmos a nossa voz interior, ahhhhh sinto-me outro mas sempre relaxado e calmo, e em paz comigo mesmo…Quanto tempo falta? Quanto tempo já estou aqui? 2 minutos? DOIS minutos??? Vou sair, fui. “Óhhh Diogo, vais cair outra vez da varanda?”.. A sorte é que eu sou uma pessoa que não se enerva na hora do bungee jumping.

Dia 46

Hoje não dormi nada, ainda tenho as marcas das algemas e acabei por descobrir que partes de mim não reagem bem ao látex preto, justo e sensual… Mas vá, podia ter corrido pior, não sei bem como, mas podia, consegui libertar-me das algemas os fim de umas horas, e acabei por perder alguns quilos à pala do dito látex, o que é sempre bom principalmente nesta altura de quarentena. Aliás, se há coisa que esta clausura por causa do coisó-vírus me tem trazido, é uma elegância e cuidado que já não tinha há muito tempo. E dadas as notícias que consegui ver, esta nova auto-estima recuperada vai ser de grande utilidade nos próximos dias quando pudermos todos voltar aos nossos cafés e passeios e, o que é melhor, sem ter de dar satisfações a ninguém. Basicamente vai ser só levar todo o meu charme para a rua e desfrutar da atenção, dentro dos limites matrimoniais, claro está. Mas já me vejo, o próximo modelo masculino de uma dessas grandes marcas de roupa, interior e exterior, de produtos para a barba e pilosidades corporais que me recuso a retirar, mas que aceito aparar para dar aquele ar de frescura vintage, ou quem sabe de outros produtos. Também estou aberto a motas e carros, claro, mas nada de fotografias em alturas ou na água fria, além de vertigens tenho a pele muito sensível e rapidamente perco parte da minha masculinidade quando entro em água fria. O pior mesmo é começar a gaguejar daquele modo pouco sensual da Joacine, a menos que me irrite, claro. Mas tenho as minhas dúvidas, claro, e recorro ao que tenho à mão, e no caso concreto, ao Canal de Moda. Aprendo movimentos, formas de andar, posar, sorrir, e tudo de forma sensual e em bom. Começo a pensar nas objecções da Sofia, claro. Cada vez tenho mais claro que parte deste humor dela se deve ao facto de eu não querer largar este meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente. E pior quando mete mulheres bonitas, como há dias com as velhinhas de máscara às compras…Pratico e pratico, e já ouço os comentários, as críticas, as palmas, as…”Que raio tomaste Diogo?”, “Isto é Gin???”, “Óhh mãe, o Diogo tomou os comprimidos com gin.” Confere, são ciúmes. A Sofia tem medo que me ponham qualquer coisa na bebida e violem.

Dia 45

Hoje passei a noite acordado, dei voltas e voltas na cama e não consegui adormecer. A toda a hora me vinha à cabeça a pouca paciência da Sofia a cada projecto meu. Eu que estou sempre a tentar dar-lhe a calma toda que ela precisa nesta clausura, e mesmo o meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente teve sempre como objectivo mostrar-lhe que, apesar do seu humor sem fundamento, eu estava aqui para ela. Ahhhh, mas quem consegue entrar na mente das mulheres e sair de lá com alguma certeza do que fazer a seguir. Estava certo da minha conduta, do meu afastamento, mas quer-me parecer que terei de me esforçar no sentido oposto, e com isso assumir que terei de relevar algumas atitudes, algumas palavras menos sentidas da parte dela, e voltar atrás no meu auto-isolamento profiláctico de relacionamento. Se bem o penso, melhor tenho vontade de o fazer. Vasculho todas as fontes de informação amorosa e de relacionamento entre casais, e percebo o que tenho de fazer. Pétalas, incenso, óleos de massagem, um curso de massagem tântrica online, uns vídeos sobre o que dizer, como o dizer e quando o dizer quando estivermos mais juntos e relaxados, lençóis de cetim, e uma lingerie sensual para mim, algo assim fofo e animal, assim do género comestível mas em bom, e la piéce de resistance, umas algemas, com pelo que a minha pele é sensível e rapidamente fica com marcas. Aliás, espero que a minha aventura de há dias não lhe dê ideias de me atirar a cera das velas para cima, é que além de muitas cócegas, aquilo deve doer e eu rapidamente começo a guinchar como um vitelinho, o que não é nada bonito de se ver. Tudo pronto, eu banhado, perfumado, oleado, um verdadeiro Deus nórdico mas sem o aroma a álcool, e muito mais em forma. Aconchego-me nos lençóis, mando um SMS a pedir que se junte a mim, e sem demoras prendo-me com as algemas à base da televisão. Não é nada confortável, mas é uma prova do meu amor e confiança, e estou certo que a Sofia o vai entender assim. Do canto do olho vejo a porta abrir, e é com toda a certeza a respiração dela que ouço e que anseio, o coração bate mais forte, os segundos parecem minutos, os minutos horas, todo eu tremo de excitação e, tenho de o dizer, algum receio virginal. Os segundos são longos como são sempre para um coração que espera, mas eis que nada. Acho que me enganei, com certeza não recebeu ainda a mensagem, será que pressionei “enviar”? E agora como faço para confirmar? Raisparta o pelo das algemas, vai-me fazer espirrar. Dói-me as costas.

Dia 44

Ahhhh que grande noite esta foi neste meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente. Não sei se foi bem dormida se bem desmaiada, o que é certo é que grande parte dela me passou em branco, o que só pode ser bom porque quer dizer que descansei. E sinto-me bem, com a cabeça liberta e pronta para continuar este meu processo de aprendizagem tipo telescola, e com o apoio desta maravilha que é a televisão por cabo. A quantidade de canais é entusiasmante, e cada um melhor do que o outro. Procuro, procuro, salto de canal em canal, ainda me detenho no CMTV mas hoje não quero pensar no coisó-vírus que me tem trazido alguns dissabores a nível familiar. Hoje quero pensar em algo diferente, algo mais interior, algo mais pessoal. Detenho-me num canal onde está a dar um grande programa acerca daqueles rapazes que têm todos os mesmos nomes para rapazes e raparigas, o que é deveras prático quando se quer chamar alguém para a mesa, mas talvez seja mais complicado quando queremos procurar um Hélder no meio de todos os Hélderes. Fiquei a saber que além de muito arrumadinhos, limpinhos e lavadinhos, têm uma grande curiosidade acerca das famílias de todos os países, mesmo aquelas mais antigas e numerosas. Mas que raio, penso eu, eu também sou de uma família numerosa e antiga, e não me falta locais onde procurar e criar a minha própria árvore genealógica. Ok, há pelo menos uma familiar que vou ter de omitir, mas com sorte o coisó-vírus se encarrega dela e com isso aprende, mas de resto entre irmãos e irmãs, pais e mães, tios e tias (excepto vocês sabem quem, mas esta com certeza foi apanhada no lixo e sabem o que se diz, pode-se tirar a menina do lixo, mas não o lixo da menina), avós, primos, primas, eh pá, não é uma árvore, é uma floresta. Já me sinto em pulgas e ainda nem saí do meu ninho, todo eu já vibro com tanta informação que terei de coligir, enquanto aproveito para corrigir alguns pormenores menos importantes. Ahhhh o tio Google e as suas infinitas fontes de informação, o Travel Channel e o de História, avanço a toda a velocidade e já tenho o esquema planeado, os nomes definidos, só me falta perceber em que ramo coloco os primos e filhos nascidos de mãe incógnita, mas nada que um tracejado não resolva. Todo eu sou uma árvore, todo eu sou a família, ou pelo menos o real e bom lado dela e não o refugo que em todas as famílias atormenta os restantes. Estou cansado, esgotado mesmo, já há muito tempo que não me metia numa aventura destas, mas que bem que soube, que orgulhoso estou, que grande e bela família consigo retractar, desde tempos idos até aos de hoje, que gratidão, que amor, que …”Que raio fizeste À parede da sala???”, “Tu pintaste a parede da sala, meu Deus?”, “Óhh mãe, temos de falar!!”….Acho que a Sofia não gostou de rever algumas pessoas.

Dia 43

Hoje a noite não foi fácil. Entre o cheiro a churrasco que não sai da casa, e algumas partes de mim próprio que me fazem lembrar com saudades as férias familiares no Algarve há algumas décadas atrás. Reparem que nem refiro o facto de a Sofia me ter criticado proactivamente o projecto, e algumas abordagens que tenho utilizado nesta minha busca de uma solução que nos permita sair à rua mas, como já disse anteriormente, acho que a clausura não lhe está a fazer bem, e casa vez mais pratica o distanciamento social como forma de segurança. Mas um homem tem de saber entender as críticas e os raspanetes, afinal podia ter pensado melhor no projecto anterior, e com isso em mente resolvo pegar no outro projecto quentinha em mente, porque mais que máscaras e luvas, temos de nos proteger utilizando o calor, como diz o presidente daquele grande país. Entendo que o fogo não é a melhor solução, até porque os pingos de cera ainda não saíram totalmente do chão do corredor daqui de casa, e resolvo abordar este novo projecto de forma mais pragmática, mais eficiente, mais limpa. Uma vez mais a perspectiva de uma solução mexe comigo, sinto-me exultante e excitado com o quão perto estou de deixar o meu nome marcado na história. Uma retoques aqui, um pouco de tecnologia ali, uns leds acolá, e tenho o protótipo pronto em dois tempos. Substituo o fogo por uma descarga de electricidade capaz de matar o coisó-vírus de tanto calor que gera, e com isso preparado resolvo fazer o primeiro teste para a Sofia. Tudo pronto, equipamento colocado, baterias prontas, interruptores desligados. Olho-me ao espelho e sinto-me como um Transformer mas em bom. Confiante ligo os interruptores um a um até chegar ao principal……..”Diogo, Diogo, Diooooogo….”, “Óhh mãe, o Diogo desmaiou..”, “Que raio faz ele com a coisa das moscas na cabeça??”…Tenho de rever os planos do Sr. Trump, provavelmente o desinfectante nas veias funciona melhor.

Dia 42

Que rica noite esta foi, cheio de bom sono e de boa informação, e hoje com uma nova posição neste meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente no sofá que tenho por cama, e que me permite descansar as pernas enquanto tiro notas de todos os canais informativos além do Facebook, Instagram e aquele outro que nem sei bem para que serve, mas que tem pessoas a passar o dedo para um lado e para o outro à espera de respostas ou notícias frescas. Hoje dediquei a minha atenção, qual aluno interessado que sou, aos canais estrangeiros, nomeadamente o da Casa Branca e o Court Cam. Não só pratiquei o meu nível de inglês, como as minhas bases de Direito de há 25 anos atrás. Foi emocionante, e sinto-me o verdadeiro Perry Mason Latino, ou Atlântico como eu gosto de dizer. Mas o que mais me interessou foram as notícias sobre a evolução das investigações médicas sobre o coisó-vírus que o presidente daquele país nos transmitiu, e que muito me descansou e permitiu pensar no futuro. A que eu mais gostei, se bem que a ideia de injectar desinfectante possa à partida parecer mais eficaz, foi a que nos garante que o coisó-vírus não gosta de calor, razão pela qual o nosso país não lhe serviu de esteira. Ora aí está o verdadeiro pensamento científico em acção, em movimento, em evolução. Óhh a gratidão que aquele povo deve sentir pelo seu líder, e que eu agora partilho. Mas como transformar um conceito científico deste calibre, propalado pelo cientista-mor daquele grande país, em algo exequível e de utilização caseira. Como democratizar esta solução. Ahhhh mas já me conhecem, e sabem que eu busco soluções mesmo às escuras, e foi mesmo às escuras que tudo se fez luz e claridade. Mais que máscaras e luvas, temos de nos proteger utilizando o calor, e surgem-me logo à partida duas soluções. Abordo a primeira com empenho, e rapidamente crio um protótipo pelo qual o modelo definitivo terá de se orientar. Está quase pronto, falta limar umas arestas, uns pormenores, uns apoios, e quem sabe um crowdfunding para criar em quantidade suficiente. Vou mostrar à Sofia a minha investigação, os meus progressos, estou emocionado, estou exultante, todo eu vibro, todo eu estou em brasa, todo eu ardo….”Óhh Diogo, estás a arder, rebola-te no chão já.”, “Estás doido, ainda pegas fogo à casa”…se calhar tem razão, ainda tenho mesmo de acertar alguns pormenores.

Dia 41

Da série, acidentes desta quarentena. Hoje acordei bem disposto e fresco, refeito das mazelas dos últimos dias e animado com estas notícias de que o coisó-virús está a passar, ou pelo menos é o que todos vão entendendo do que diz a Clara de Sousa. Mas mais importante, hoje é dia de ir às compras quinzenais e com jeitinho convenço a Sofia a deixar-me ir na sua vez e assim deixo-a descansar e fazer as coisas que as raparigas em casa fazem quando estão em quarentena…não sei bem o quê, mas aqui o importante não sou eu, é ela. Explico-lhe que estou preparado, tenho a lista electrónica do meu Google Keep preparada com caixinhas de verificação, e conectado a ela para poder fazer as alterações de última hora normais, e remato com um “trago-te uma surpresa 😍”. Ela vira as costas de emoção, e sinto que respira mais fundo e até pesado de saudades que tem minhas. Talvez tenha de repensar o meu auto-isolamento auto-imposto espontâneamente, e voltar a dar alguma companhia e assistência…E ela concorda, mas sempre lembrando “Não faças asneiras, atenção”. Ahhh o amor, mesmo este com mais de 30 anos, o amor que nos faz verbalizar coisas que o coração não pode dizer..Eu entendo que o que ela quer dizer é “Volta bem meu amor, sem maleitas ou feridas. Tens tudo pronto, as protecções, as proteínas…Volta rápido..”, mas cavalheiro como sou deixo passar aquela máscara de frieza. Vou-me arranjar, arrumo o meu ninho, arejo a sala, desligo a televisão vou-me arranjar. Cabelo cortado, barba penteada, as pilosidades corporais na medida certa, sim que nem Tony Ramos nem bebé de colo, manicure e pedicure feitas, um pouco de desodorizante e perfume e estou pronto. Eh pá, estou um verdadeiro George Clooney mas em bom, e nem os pelos do nariz escapam. Rapidamente me lembro do que aprendi nas notícias desta semana e protegido vou buscar os sacos recicláveis..”Estás nu e de máscara porquê????”, ”Óhhh Diogo, tu desaparece-me da frente”, “É hoje que ligo à tua mãe.”…É o que dá ela só ver lives do Bruno Nogueira, da Beatriz Gosta, do Alexandre Pereira e do Jaime André de Sá, depois não sabe que para sair de casa bastam luvas e máscara…😁

Dia 40

Hoje acordei cansado, passei a noite toda às voltas no sofá sem posição, e não fosse a minha agilidade e movimentos quase felinos, mas em bom, e teria sido uma daquelas noites totalmente em claro. Mas nada que não se recupere, nada que nos deite abaixo quando podemos trocar umas horas de bom sono numa cama fofa, macia, larga, espaçosa, confortável e com colchão de molas ensacadas, por aprendizagem nesta que mais parece a telescola da minha quarentena. Cansado de lutar contra o sono, e logo eu que sou pelo amor, decidi pôr de lado o Facebook. Começo a achar que nem toda a informação que lá passa é de fonte fidedigna e pode-nos induzir em erros. Se há teorias válidas, como a que ontem li que quem criou este vírus foi a Greta Thunberg, no seu laboratório de ciências da escola só para interromper o aquecimento global, e que aproveitou para espalhar durante a sua volta ao mundo, outras há que não entendo. Na mesma fonte de informação incentivavam a que todos nos reuníssemos, contra aquilo que eu acredito no meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente, usando uma máscara da dita Greta. Ok, a menina é irritante, tem aquele ar idiota de quem levou com uma tábua na cara quando nasceu, e aquela maneirinha arrogante de falar como se todos lhe devêssemos algo, mas daí a evitar o coisó-vírus vai uma distância. Ahhhh, mas para que serve a cabeça de um homem se não é utilizada? Claro, está tudo explicado, este vírus foi criado por ela mas só ataca os outros, e quem usar a máscara da Greta está safo, porque apesar de inteligente, o coisó-vírus é estúpido e não distingue a máscara da carinha larocó-parva da menina. Que grande invenção, que grande criação e os meus parabéns à menina, afinal sempre fez mais alguma coisa que moer a paciência a todos. Mas agora que estava na posse dessa informação, o que fazer? Máscaras para a família, em tamanho S, M, L ? Com elásticos, furos para os olhos e nariz? Optei pelo modelo original, em cartão com uns elásticozinhos presos às orelhas da greta, e com dois buraquinhos nos olhos para evitar postes e velhinhas corredoras e higienizadas. Fiz para todos, Sofia, Babe, Mãe e Pai da Sofia e uma para mim, claro. Ainda estavam todos a dormir e já eu labutava afincadamente sempre tendo em mente o passeio relaxado que daria com a família aqui à volta do quarteirão. Entre papéis, tintas, elásticos, agrafes e furadores o reboliço era grande mas a emoção era maior. Ahhhh, já imaginava o sorriso da família, a felicidade do mais novo, a emoção da Sofia…”Óhh Diogo, tu queres parar com o barulho que são 5 da manhã?”, “Estás a cortar os olhos das fotos da Greta?”, “Estás doido de todo, vou dormir”…Esqueci-me que a Sofia é muito sensível a estes temas do ambiente.

Dia 39

Hoje ainda acordei dorido e com o nariz do tamanho de uma batata. Tão grande e doloroso que me lembrei duma história com a minha amiga Mila. Mas um homem não pode parar, e não são umas equimoses e hematomas que me deitam abaixo. Prossigo, como bem diz o Rodrigo G. em busca da melhor solução para evitar o coisó-vírus nesta vida futura DC (depois do coisó-vírus). Há coisas que aprendi, tem de deixar ver em frente, e ao mesmo tempo ser confortável e proteger o utilizador de postes e também das velhinhas higienizadas que por aí pululam feitas atletas olímpicas de marcha, lenta, mas marcha. É vê-las todas equipadas a rigor de manhã a ir ao pão, com o saquinho na mão, vão à loja do Sr. João, e ninguém as pára. Aliás, ainda ontem, tinha eu mudado o meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente para a varanda, e diverti-me a fazer apostas com o Manél e os outros, sobre quantas voltas dariam ao quarteirão, e quem venceria. Ahhhh foi uma animação, a cada 25 minutos lá passava uma, sempre naquela velocidade de quem está a andar meio parado, mas sempre de saco vazio. Cheguei a criar um cartaz a dizer “A Padaria é à esquerda”, mas decerto àquela velocidade não conseguiam ler. Preocupado com isto, e com o excesso de exercício das corredoras, decidi que não podia deixar esta situação passar em claro, era necessário pensar numa solução, algo que não só as colocasse na segurança que todos tanto necessitamos, como também lhes proporcionasse o sustento que tanto buscam nas corridas sem barreiras em torno do quarteirão. Pensei naqueles abastecimentos das maratonas em que cada atleta retira o que necessita de cada banca. Mas a minha religião nunca permitiu maratonas, e nesta quarentena não sei o que a Sofia vai pensar ao ver-me ali exposto não só ao coisó-vírus, como à transpiração das atletas. Tinha de repensar, tinha de ir mais fundo, ser proactivo, interventivo. Eureka, disse eu e o Manél até deu um salto, estava encontrada a solução que me protegia ao mesmo tempo que cumpria o desejado. Ahhh, a felicidade de ver a felicidade alheia, de ajudar o próximo, de cumprir o destino…”Diooooogo, paras de atirar pães às pessoas?”, “Oh mãe, vem aí o homem do condomínio…” Ciúmes, acho que são ciúmes das atletas.

Dia 38

Acordei ainda mal refeito da pancada de ontem, e toda a cara me dói, mas principalmente o nariz, mas só quando lhe toco. Provavelmente tenho de fazer como a Sofia me diz e deixar de mexer nele. Não sei o que se passa, mas sinto mesmo que a clausura e o distanciamento social lhe estão a fazer mal. Mal fala comigo, anda sempre a resmungar “as paredes isto, o agente Santos aquilo”, e sempre que lhe falo das coisas que tenho aprendido ela revira os olhos e bufa. É o que eu costumo dizer, não se pode manter um passarinho fechado muito tempo sem que ele fique assim, resmungão. Por isso, tendo em conta o seu bem-estar, resolvi alugar os meus préstimos a quem deles precisasse. Estamos a falar de trabalhos em casa, bricolage, arranjos claros, não dessas actividades que violam o distanciamento social mínimo de segurança. Sempre tinha desculpa para sair de casa, e ao mesmo tempo deixava a Sofia mais descansada e com tempo para ela. Mas como preparar isto neste tempo de auto-isolamento auto-imposto espontaneamente? Não sou o mais evoluído no que toca a redes sociais, por isso pensei no velho e bom anúncio de jornal! Ahhhh, mas está tudo fechado e tenho de enviar o anúncio por internet, e isso é confuso e não me esqueço do que se passou com a Margarida Bessa Rego e a sua compra online. Não, sou melhor que isto, e se bem o sinto, melhor o concretizo. Com o cuidado que me caracteriza, preparo um cartaz do género “Tudo Vai Ficar Bem”, mas em bom e com uma clara vertente comercial, e estendo-o na varanda de casa. Sinto-me bem, a assumir as rédeas da casa, a ajudar a família, a preparar o futuro….”Óhh Diogo, que fizeste ao lençol????”, “Aluga-se? Aluga-se? Eu vou é dar-te de volta à tua mãe”. Eu não sei, mas acho que foram os ciúmes a falar, ela não consegue mesmo viver sem mim.

Dia 37

Hoje adormeci tarde, está visto que sou mesmo intolerante à lactose, e nem mesmo as bolachas Maria que lá misturo fazem qualquer efeito. Amanhã vou tentar com flocos de milho, pode ser que ajude a dormir melhor e mais confortadinho. Assim como assim, lá fui dormindo e acordando, até que já cansado desta viagem de ida e volta ao sono, resolvi sair na paragem que se chama Insónia. Mas lá está, se há coisa que esta clausura e este meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente tem mostrado, é que não sou homem de copos meios vazios nem meio cheios. Aliás, a causa da minha insónia foi mesmo um copo completamente cheio de leite, e com isto em mente resolvi rever as notícias do dia vasculhando todas as fontes, do Facebook ao Instagram, do Hi5 ao Tinder, tudo serviu para perceber que sem uma máscara em condições, continua a ser complicada a luta contra o coisó-vírus e com isso, complicada a minha ida ao café tomar ar e passear com o Manél e os outros. Aproveitei as horas que ainda tinha pela frente e tentei informar-me acerca de tudo o que se sabe sobre este inimigo, e foi fácil porque pelos vistos ninguém sabe assim muito, o que facilitou a minha escolha. Procurei e procurei entre todas as tralhas que vou guardando nos arrumos até chegar ao que queria, e depois foi sondar uma aspiradela, uma lavadela, uma esfregadela e tudo estava pronto para a minha primeira saída de casa em 37 dias, mas quem é que está a contar? Tomei banho, vesti-me a rigor, calcei as minhas luvas de nitrilo com farinha, vesti as minhas melhores calças, sapatos e camisa e fiz-me à rua. Sem me esquecer das chaves e tudo. Não percebi se estava escuro por ser muito cedo, ou se a minha máscara era tão escura que não via nada, só sei que de repente senti uma pancada forte e só me lembro de acordar em casa com uma dor de cabeça brutal.” Boa noite Agente Santos, obrigado uma vez mais.” ouço a Sofia dizer. Bem, não sabia que que o confinamento obrigatório era tão regulado.

Dia 36

Hoje dormi bem, tranquilo, profundo, ai que bem que dormi. Aos poucos vou-me habituando e qualquer dia nem consigo dormir numa cama daquelas normais, na horizontal e sem braços. Tá bein, tenho esta televisão enorme onde procuro a informação necessária para me ocupar o tempo, e sentir mais confiante nesta guerra contra o coisó-vírus. Além de que aprendo outras coisas muito úteis e que me darão muito jeito no futuro. Hoje por exemplo, o jeito que me deu ter assistido a todas aquelas sessões formativas da série dos fugitivos. É verdade, por mais que o Rodrigo Guedes de Carvalho o diga, eu vejo tanta gente na rua que fico assim como que com uma certa inveja. Eu sei, eu sei, a minha Sofia fica fula se sabe que saio, mas isso é do medo de me perder e nunca mais arranjar outro igual. É uma querida. Mas um homem tem que apanhar ar, passear o peluche, fazer exercício físico ou não e, acima de tudo, um homem tem de conviver e dizer uns disparates. Ai eu na quarentena pesquei um peixe assim, ou, Eu na quarentena cacei um bicho assado, e se bem que eu não tenha grande coisa para partilhar, ao menos fico a saber das mentiras dos outros. Cansado de estar no sofá, e porque era cedo, liguei ao Manél e combinei um café para dali a 10 minutos, e ele que avisasse os outros, ao que ele respondeu “Tá bein”. Surge a primeira questão. Como sair de casa sem me verem, sem me sentirem, e pior, sem me mandarem de volta para o meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente por mim. Mas não sou homem de desistir assim à primeira, e para levar a cabo a minha missão, recorro à subtil arte da camuflagem. Tenho de me misturar com o ambiente, ser uno com a paisagem, ser a parede, o chão, a porta. Ahh mas nem eu me reconheço, estou tão bem disfarçado que dei por mim a conversar com o espelho da casa de banho (banheiro, Alexandre Pereira) durante um bocado. Aliás, a conversa ia tão boa que só desconfiei quando me convidei a ir dar uma volta mais sossegada para qualquer lado. Alto lá, disse eu, que eu sou casado e feliz, não vou assim à primeira com o primeiro que me aparece. Com isto esqueci-me das horas com o Manél, e tive de acelerar e, já o diz o povo, a pressa é inimiga da perfeição e sinto em mim que o plano vai abortar. Mas arrisco, saio da casa de banho sorrateiramente, abro a porta do corredor sem respirar, e sem mais demoras estou na rua. Liberdade, liberdade, finalmente liberdade…”O que fazes na varanda com esse saco na cabeça?”…. Eu sabia, devia ter saído pela porta.

Dia 35

Hoje nem sei se dormi se passei a noite acordado no meu pequeno e espontâneo auto-isolamento auto-imposto neste sofá de frente para a cama que tenho por televisão e que o meu amigo Abílio se recusa a acreditar. Tudo começou quando resolvi desopilar de mais um dia intenso cheio de horas com o Canal História, de novo porque gosto sempre de uma boa história de extraterrestres para adormecer. Aprendem-se sempre muitas coisas úteis, principalmente sobre os ritos de mumificação supervisionados por Anúbis, que pela cabeça de cão logo se percebe que era extraterrestre, o que a mim não me aborrece nada, e estes com cabeça de cão até têm um ar bem dócil e carinhoso. Mas surgiram-me algumas dúvidas, desde a porcaria que se faz para mumificar alguém, principalmente quando ela não concorda, até o que fazer quando corre mal? Ficamos com um Anúbis a correr por aí feito doido ou a tentar lamber os tomates? Para desviar a mente destas questões, procurei distrair-me procurando as mais recentes e fidedignas informações sobre o coisó-vírus, nas diversas teorias provadas que pululam nessa fonte de informações que é o Facebook. Procurei, procurei, mas rapidamente fiquei sem saber no que acreditar, se nos raios 5g que nos fritam a moleirinha, se na senhora que me pedia para ir para a rua todo nu e com o cartão de cidadão (na mão, penso eu) para ser fotografado pelo satélite da NASA que me ia medir a temperatura corporal. Havia outras teorias, mas esta última pareceu-me real e lógica, e não tardei em realizar a experiência. Provavelmente me vão ligar da NASA a dizer que estou infectado e com temperatura, mas aqui entre nós vos digo, eu mal tiro a roupa fico quente….é o meu metabolismo, pareço um urso. Cansado de pôr e tirar a roupa, e de me pendurar na varanda, e para melhorar o alcance do satélite, resolvi estender-me no relvado e deixar-me ali estar até ter a certeza que o satélite me apanhava em condições. Deve ter resultado, até porque nem me lembro de mais nada. Nem de ter saído nem de ter voltado ao sofá. Só me lembro vagamente de ouvir a Sofia: “Bom dia Agente Santos, então que foi desta vez?”…Acho que fui abducionado e me mexeram na memória.

Dia 34

Hoje acordei preocupado, até dormi bem e nem o facto do braço do sofá estar a ganhar uma forma estranha me incomodou por aí além. Mas não sei, acho que tenho de deixar de ver o Rodrigo Guedes de Carvalho à noite. Ou isso ou deixar o leite com bolachas, pois está claro que sou intolerante à lactose. Ahhhh, estas notícias da Gestapo del Balcón (a Gestapo das varandas) que atacam tudo e todos sem perguntar quem lá vai, ao que vai, porque vai nu? É gente a quem a quarentena não está a fazer nada bem, e das duas uma, ou não arranjam um peluche para passear na rua, ou lhes faltam amigos como Manél e os outros. Também pode ser falta de coisas mais interessantes para fazer, e assim substituem uma consola de jogos por um paintball ao vivo e à distância regulamentar de um confinamento em condições. É, acho que foi isso que me inquietou o sono: afinal quem policia a polícia do balcão, quem estabelece os limites da sua actividade, que zela para que nunca a liberdade cívica seja ultrapassada. Todas estas perguntas me ocupavam a mente sonolenta, e a acordavam como um vulcão. Pois bem, decidi tomar conta do assunto mas minhas próprias mãos e actuar aqui no prédio em prevenção. A dificuldade foi perceber como me manter discreto, mas ao mesmo tempo feroz e vigilante, como passar a mensagem: “Tou-ta ver”, como dissuadir ataques ignóbeis a quem passeia os animaizinhos de peluche? Aí entram as tecnologias, e o Tio Google é um aliado. Rapidamente encontrei o que queria. Um misto de horror e camuflagem, a fórmula perfeita para passar a minha mensagem de medo (e já dizia o meu amigo Pedro Rodrigues, “o medo é um potenciador de relações”). Preparado, camuflado, coloco-me à espreita. O ar está frio e eu sou uma criatura de sangue-frio. O torpor vai tomando conta de mim, e a par e passo deixo soltar um gemido. Mas esta é a vida de um vigilante de vigilantes. Mantenho-me atento, sempre à espera de irregularidades, mas a rua está sossegada, não há vivalma, não se houve um pássaro, tanto que adormeci. Acordo com sombras nos olhares e uns sons ao fundo. “Ahahahahahahahahahahah”, “Óhh Diogo, volta para a cama que está frio cá fora.”… Esta minha mulher é uma força, só ela para não se assustar comigo.

Dia 33

Hoje ainda não saí do meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente. Não sei, sinto-me a precisar de um daqueles dias de sorna, quanto mais não seja para recuperar desta noite de insónia. Vocês não sabem mas qualquer coisinha me desregula o sono como a um bebé. Aliás, para a minha mãe eu ainda sou um bebé, e o meu sono é muito irregular. Isso e os meus pés. Não, não são irregulares, são sensíveis como o meu sono. Ontem até me enrosquei cedo no meu sofá, mesmo de frente para esta cama de solteiro que tenho por televisão, e como me apetecia algo calmo optei por desligar das emoções fortes do Facebook e concentrei-me no Travel Channel e num programa sobre arte rupestre. Que achado, que descoberta, que pinturas fantásticas faziam estes nossos antepassados que viviam em tempos AC (antes do coisó-vírus), e o jeitinho que tinham para pintar tectos e galerias. Senti-me tentado a vasculhar mais um pouco sobre esta área do estudo mas lembrei-me da minha recente experiência de espeleologia e resolvi não pensar mais nisto. Ahh mas o espírito humano mais a sua curiosidade são armas fortes contra uma vontade fraca e rapidamente me vi a procurar o meu equipamento, calcei as minhas velhas botas de caminhada, quase novas e a brilhar apesar da última aventura, e procurei as grutas mais próximas e maiores por vias das dúvidas. Galerias altas, corredores amplos, alguns bichos e o cheiro normal destes lugares e que em muito se assemelha ao final da noite numa grande cidade, segundo me lembro. De lanterna na cabeça fui tacteando tudo para não cair e conseguir controlar esta emoção que se apoderava de mim. Mas a cada passo ficava tudo mais apertado, mais baixo, mais escuro, mais assustador. Já me via a chamar por socorro, e só o meu grande autocontrolo e o perfeito horror que tenho de correr, me impediram de fugir dali de volta ao meu ninho. Descansei, mordisquei umas bolachitas e esperei que o coração voltasse ao normal. Com a calma veio o discernimento, e com ele a capacidade de melhor ouvir e ver tudo. Ouvi barulhos, e ao fundo vi uma luz ténue. Outra saída pensei, e dirigi-me para lá até que sem razão aparente toda a galeria se encheu de luz e barulho, uma derrocada penso eu e procuro por uma segurança que não existe, ansioso procuro a origem do som….”Óhh Diogo, que raio fazes debaixo da cama do miúdo???”, “Raisparta, estás quase a ir para a tua mãe que eu já não te aguento!!”… Definitivamente, acho que a minha mulher não está a lidar bem com esta quarentena. Podia vir dar umas voltas comigo à natureza, de certeza se animava.

Dia 32

Hoje acordei de madrugada sem sono nenhum. Acho que o facto de terem já passado um mês e um dia desde o início desta nossa nova vida de clausura, e poucos menos do meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente, me começa a afectar o sono, porque normalmente durmo como uma pedra enroladinho no meu ninho qual passarinho a espera da comida. Isto do coisó-vírus começa a parecer-me algo mais complicado do que aquilo que o Rodrigo Guedes de Carvalho nos transmite. Mas há coisas a reter do discurso dele, e a primeira é que devemos contactar os mais velhos, aqueles que passaram pelas guerras todas, grandes e pequenas, que passaram pelas pestes todas, bubónicas, suínas, espanholas, suínas, das aves, suínas, mais as ditaduras e as repúblicas e as monarquias e os racionamentos. Em suma, gajos duros e resistentes que nos saberão dizer o que fazer. A esta hora da madrugada nem os velhinhos do Marquês estão a jogar às cartas, mas como o destino conspira a nosso favor quando tentamos algo positivo, rapidamente me abeirei de três ilustres representantes dessa faixa etária que não sabe o que é desistir. Não foi fácil interromper a conversa que ia animada, mas optei por oferecer uma rodada e assim conseguir uma abertura para colocar as minhas questões. Mas, e esta apanhou-me de surpresa, estes senhores sabem ser discretos e nem à força de rodadas eu consegui sacar-lhes nada. Ahhhh, bem se vê que foram criados entre o Porto e Caminha, ou noutra dessas grandes cidades que em conjunto, cada uma com a sua singularidade como diz e bem o meu amigo Octávio,  habitualmente se define por O Nórteeee (tem de ser dito assim e com voz grossa como aprendi há anos no filme “Bienvenue chez les Ch’tis”). Homens duros, rijos, de carácter, orgulhosos das suas raízes e vidas passadas. À força de rodadas, que não os afectavam, comecei eu a balbuciar, e a enrolar a voz, mas não desisti, um de nós haveria de quebrar.” Diogo, Diogo, DIOOOGO, vai-te deitar que estás bêbado.”, “Raisparta, o que é isto no louceiro?”, ”A sério Diogo?”.. A Sofia não entende, nunca esteve numa taberna.

Dia 31

Hoje custou a adormecer, e nem a falta de circulação nas pernas me ajudou a dormir neste meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente. Acho que a quantidade de carne assada, esparregado e pudim me deixaram algo pesado. Mas cada vez mais me torno uma pessoa que não vê o copo nem meio cheio nem meio vazio, aliás o facto de ver os copos sempre cheios com certeza não ajudou a fazer a digestão. Mas como não há melhor forma de aproveitar o tempo do que a aprender alguma nova arte, dei de caras com uma reposição à lá 24 Horas do Ink Master e, sem dúvida, percebi como preencher aquele vazio que me agonizava e preparei um copinho de leite e umas bolachas Maria, claro. Após as 3 primeiras horas do programa eu já dominava a técnica do desenho, o stencil, a máquina e, não tinham passado outras duas quando decidi preparar o meu portfólio para me apresentar no melhor estúdio de tatuagens para ser mentorizado pela melhor tatuadora que existe, a minha amiga Lara Amorim. E que feliz ela vai ficar, sempre em busca de diamantes em bruto e cai-lhe assim no colo um já lapidado. Que melhor prenda de anos ela pode querer. Claro que o melhor portfólio sou eu mesmo, e tirando aquilo que ela chama azulejo, agora já sou o verdadeiro catálogo de criações e criatividade aliada a uma técnica invejável. De mandalas a caveiras, de pin-ups a faróis, tudo me sai de forma espontânea e, digo-vos, quase perfeita. E nada melhor que criar uma memória desta Quarentena em forma de tatuagem, e se bem o pensei, melhor o fiz. Já de manhã eu era um poço de criatividade, de cor, de padrões, de arte mas em bom. Tudo estava pronto para me apresentar no estúdio e receber um grande.” Olha lá, que raio é que andaste a fazer com as canetas do miúdo?”, “Vestes umas cuecas fazes o favor?”, “E vai te lavar.”, “Sinto-me cansada, tão cansada.” É, isto da arte não é para todos.

Dia 30

Ahhhh, já tinha saudades do meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente. Estas clausuras são boas para nos conhecermos melhor, para aprendermos a estar connosco e a gostar, e a perceber aquilo que nos caracteriza. Nestes dias percebi que a minha mãe tinha razão, sou uma jóia de um moço, preocupado com o bem do outro, e isso tem-se visto. A clausura para mim não me afecta, há algo em mim que lembra um eremita, mas a Sofia é um passarinho, e a clausura faz-lhe mal e deixa-a irritadiça e implicativa, mas tudo há-de passar e se me mantiver em paz comigo, também a consigo acalmar. Hoje adormeci a ver as Robot Wars, e que maravilha que aquilo é. A técnica, a estratégia, os conhecimentos técnicos e informáticos, robótica, armamento, tudo o que eu gosto conjugado num robot pequeno, controlado por rádio, letal e eficiente. Acordei a meio da noite com os planos na cabeça, e não demorei a passá-los à prática. Foi só ir buscar a caixa de ferramentas e algumas peças à garagem, e o resto foi fácil de encontrar nesta que é a casa de um inventor em potência. Delineado o plano, definidos os esquemas e armamentos, era hora de passar à prática. Tinha de ter um aspecto duro, brutal, imponente, sólido e feroz. Teria tracção às várias rodas, sensores de elevação, lâminas rotativas, lasers, teria lasers. Ahhhh sentia-me como um Victor Frankenstein momentos antes de fazer passar electricidade pelo corpo do monstro, inebriado de tal forma com a minha criação que resolvi dar-lhe o meu nome, chamar-se-ia O URSO e seria o robot dos robots. Estava vivo, era mortal, ninguém o pararia. “Óhh mãe, o teu genro desmontou o teu Roomba”, “Tu não paras, raisparta”… Mulheres e tecnologia, é o que é.

Dia 29

Hoje dormi bem, aliás, dormi mesmo bem, nem me lembro de nada, e nem senti a mudança de cama. Dado o resultado do meu delírio papal, a Sofia finalmente entendeu que tinha de mudar de atitude e tem-se mostrado incansável no que toca aos meus cuidados. Não percebi bem porque me dá tantas pastilhas de cada vez, mas a verdade é que como passo o dia a dormir, o melhor é mesmo ser ela a tratar disso. Mas a verdade é que sempre que abro os olhos a Sofia está lá com um ar calmo e relaxado para me deixar recuperar. Acho que estou a caminho de voltar definitivamente para o meu leito, e por vontade própria. Ahhhh mas hoje levantei-me, e sem acordar ninguém decidi vir para a sala ver algo nos canais desportivos, ou assim. Hoje não quero nada de intelectual, só mesmo uma prova de Fórmula 1, ou de Rally, quem sabe uma Baja. Mas Óhh que desilusão, por causa do coisó-vírus não há nada de novo nas corridas, por isso resolvi tratar do assunto com as minhas próprias mãos. Rapidamente juntei uma equipa, e com a ajuda do Manél e dos outros, também rapidamente tínhamos tudo o que precisávamos para uma corrida épica, um duelo Senna-Prost, Piquet-Patrese, Allen-Waldegard, Crispim-Meunier. Pista definida, carros definidos, pilotos a postos e os semáforos com as luzes ligadas, de repente vermelho, vermelho, vermelho e….verde. Lá vão eles, pequenos toques ansiosos, o rugir dos motores, o cheiro dos escapes, as cores na retina, o barulho infernal a cada passagem de caixa, o chiar ensurdecedor dos pneus, as equipas a postos para as primeiras paragens, o som dos macacos pneumáticos, as chaves das rodas, e em dois segundos lá voltam todos à pista, cada vez mais aguerridos, selvagens, o público grita, rejubila, de todo o lado cânticos e apupos, e eu arrepiado de tanta adrenalina, já nada via, e nada ouvia só ansiava pela bandeira xadrez e ela estava pronta, quase quase……”Óhh Diogo, são 4 da manhã, queres parar com esta gritaria???”, “Vais arrumar isto tudo já, Raisparta que me acordaste o miúdo,”…bem, vou dormir na minha motorhome, e desta vez não saio daqui…

Dia 28

Da série, acidentes desta quarentena. Ahhhh, que bela noite de sono, quase que posso dizer que foi uma noite santa nesta sexta-feira também ela santa. Sinto-me como Tweety (pequeno passarinho amarelo dos desenhos pré-coisó-vírus), e já não sinto nada, nem as pernas, nem as costas, nem os braços… Ahhhh e que bem me sinto a nível emotivo, em paz comigo próprio, e repleto de luz interior. E acho que foi isso que eu aprendi com este auto-isolamento auto-imposto espontaneamente, apesar da dureza dos votos que venho professando, acho que tem tudo para dar certo. Ok, preciso de me relembrar dos tempos do Jardim Escola Flori, da Madre Begoña, e das minhas aulas de catequese e da minha primeira comunhão (onde me apresentei com um modelito capaz de fazer inveja aos mais estilosos filhos da monarquia europeia, mas ainda em bom) mas nada que não se faça, e com prazer (contido e não pecaminoso, claro). Entre o YouTube e o Canal História, tudo serviu para me tornar um bom pregador, um pastor de homens, um líder espiritual à lá guru mas com estilo moderno e até pseudo acessível. O chamado clérigo hipster. Já me vejo vestido de branco, com uma mitra dourada ou cardinal, um báculo na mão, e a paróquia sedenta para me ouvir falar e transmitir os meus ensinamentos. Todo eu levito de tão inebriado, e na minha cabeça o chamamento é claro.”Óhh meu deus, sai de cima da grade que ainda me cais lá a baixo.”, “Óhh mãe, o Diogo estatelou-se no jardim aqui em baixo, já volto.”.

Dia 27

Hoje passei a noite acordado a pensar na vida, e nas resoluções para os meses pós-coisó-vírus que aí se avizinham. Como dizem os gregos, “i krísi sta elliniká simaínei efkairía” e não há tempo a perder quando as oportunidades surgem. Ainda mal refeito da insónia, reuni aqueles que normalmente me acompanham nestes momentos de criatividade e de empreendedorismo até porque como sabemos, “Haddii aad rabto inaad dhakhso u baxso, keligaa tag. Haddii aad rabto inaad aad u fogaato, koox ahaan u tag.” E eu prefiro ir longe a ir sozinho. Reuni todos, dentro das medidas de segurança, claro, e pensámos, pensámos durante horas. A determinada altura a Sofia veio ver se estava bem, (ai as saudades que o meu auto-isolamento lhe estão a dar) olhou para nós, encolheu os ombros, revirou os olhos e foi-se embora. Ela é meio tímida disse-lhes eu, e prosseguimos o debate, de forma a termos tudo pronto ao final deste dia. Ao final da tarde já tínhamos praticamente tudo definido, e cheguei à conclusão que teria de confrontar a Sofia e que algumas alterações eram necessárias. Sem mais demoras fomos todos ter com ela e eu disse: “Eu, o Manél e os outros decidimos criar um lobby e queremos mais privilégios.” Ao que a Sofia perguntou: “Mais privilégios?”, ”Tipo o quê?”, “Tu já tens privilégios demais.”, “Não tens responsabilidades”, “Não tens preocupações.”, “Que mais queres?”, “Óhh Diogo, não me chateies que já não tenho pachorra.”. Voltei para dentro e disse-lhes: “Hoje não deu, ela está num daqueles dias.”.

Dia 26

Hoje acordei meio moído. Não sei se não será desta humidade toda mais coerente com o Inverno. A sorte é que me agasalho bem aqui neste meu auto-isolamento auto-imposto espontaneamente como reacção às reacções da minha mais que tudo. Mas esta noite foi longa, o sono não vinha, as pernas não tinham posição, e as costas já não se enquadravam bem neste meu ninho, pelo que decidi aprender mais sobre o mundo que me rodeia. Olhei para a televisão, olhei para o telemóvel, voltei a olhar para a televisão, mas acabei por me decidir por procurar no Tio Google algumas respostas às perguntas mais pertinentes da nossa vida. E quem conhece o Tio Google sabe que ele é assim, para cada pergunta tem um sem número de respostas, e algumas delas com imagens e vídeos bem definidos e muito educativos, e, e até bem interessantes, mas não é esse o tema de hoje e há crianças por perto e algumas que até conseguem escapulir-se ao Facebook. Claro está, que em tempos de coisó vírus, o difícil é decidir qual a pergunta mais importante a colocar, mas depois de analisar um bocado na vida, depois de pensar nos meus últimos dias, depois de escutar o meu coração, atirei-me de cabeça e perguntei: Tio Google, como raio se faz o Sudoku? Ahhhh a beleza de ter na mão as respostas às perguntas de uma vida. A sensação de poder que todo este conhecimento nos transmite. Pouco tempo depois já praticava a fundo, qual profissional, já mudava os números nos quadrados como um jogador de xadrez, sentia-me inebriado e todo o meu cérebro vibrava em êxtase, e tudo corria bem, suavemente, e só não era perfeito por um ruído de fundo nas engrenagens do meu Cubo de Rubik versão Sudoku.” Mas tu não ouves o miúdo a chorar?”, “Dá-lhe os Legos, caraças!”, “Raisparta a quarentena mais as tuas merdas.”. Acho que a Sofia ainda não entende o Sudoku.

Dia 25

Hoje acordei especialmente criativo depois de ter passado uma bela noite no meu retiro intelectual auto-imposto espontaneamente pela Sofia, que não está a conseguir lidar bem com a clausura! Mas foi uma boa noite esta, e o culpado foi o nosso Primeiro-Ministro, e aquilo que disse acerca de termos de produzir internamente o que temos importado. Eh pá, é que é mesmo isso. Porque raio andamos a importar coisas que podemos criar e desenvolver aqui dentro? Pois bem, se bem pensei mais depressa o concretizei. Reuni o pessoal para uma sessão de ideias bem profundo e que trouxesse soluções simples para os problemas que nos afectam hoje em dia por causa do coisó-vírus. E o que acontece quando pomos todos as cabeças a pensar no mesmo, as soluções surgem e em catadupa. Analisamos bem os problemas, e as necessidades, e chegamos todos à conclusão que precisamos de toucas adaptáveis a todas as cabeças, mesmo as mais esquisitas, máscaras mais simples de colocar e mais eficientes, e viseiras mais funcionais, e se possível mais coloridas para não assustar os pacientes, e por fim um protector de corpo inteiro. Ahhhh o doce sabor do dever cumprido, o orgulho que nos enche o peito pelo trabalho bem feito, e pela equipa que crias, a força que sentes quando tudo sai bem. Na minha cabeça aplausos, as ovações, os agradecimentos e os gritos. “Raisparta Diogo, o que andas a fazer com as fraldas do miúdo?”, “Isso são os meus pensos?”, “Fui, arruma-me essa merda toda antes que a minha mãe acorde”. É o normal, boas ideias têm sempre estes obstáculos…

Dia 24

Hoje dormitei um pouco de tarde, e acordei com o Rodrigo Guedes de Carvalho a explicar toda a estratégia desta guerra contra o coisó vírus. Acções para aqui, operações para ali, investidas aqui, emboscadas ali, enfim, todo o meu corpo entrava naquela memória muscular típica de qualquer soldado pronto a defender o seu posto. E o Rodrigo continuava no seu briefing pré-operação, e em mim todo o meu fervor patriótico se revoltava contra este inimigo insidioso e invisível e que me estava a melindrar os menos jovens. Bastava ver a minha mãe e sogra o que sofriam por terem de ir 5 ou 6 vezes à rua durante a manhã, trazendo um saco de arroz agora, um pacote de cevada depois, tudo para não serem apanhadas no fogo cruzado. E sou um homem ou um rato? Vou aqui ficar parado enquanto nos tentam colonizar? Não, não é esse o exemplo que quero dar ao meu filho. Equipei-me, afinal ainda tinha tudo à mão, procurei o melhor local para me camuflar e esperei, esperei, misturei-me com os elementos, eu era uma árvore, eu era uma pedra, e esperei até que a oportunidade surgisse…e surgiu. Do nada o coisó vírus é surpreendido pelo ataque cerrado de um profissional como eu. Voam granadas, petardos, rockets, tudo serve de arsenal nestas alturas de guerra. Vi-o a reagrupar, a ocupar novas posições, a chamar reforços, a ganhar terreno, as minhas forças só seguras pelo meu fervor de pai e marido. Ahhhh, mas estou salvo, como que saídos de um qualquer filme de cavalaria, surgem outros como eu, sempre prontos a defender os nossos ideais. “Olá agente Santos, desde anteontem”, ouço a Sofia dizer. “Óhh Diogo, meu deus, tu atiraste garrafas de cerveja às velhinhas com máscara?”.Não pude confirmar nem desmentir, operações secretas são assim.

Dia 23

Hoje quase não dormi nada, e nem o ninho no meu sofá me fez dormir. Hoje a Sofia faz anos, e passei a noite inteira a pensar o que lhe preparar para comemorar o dia e, quem sabe, melhorar o seu humor e abertura a alguns prazeres mais íntimos. Já tinha tudo meio planeado com o Manél, mas isso era no campo do geral, no campo do específico queria estar na minha melhor forma, bem arranjado, bonito, limpinho e lavadinho, barba aparada, pernas bronzeadas e lisinhas como um jogador da bola. Ahhhh estava um gato, sentia-me um actor de Hollywood, um Mathew McConaughey, mas em bom. Perfumadinho, cuecas que realçam os meus glúteos, enfim, um Adónis mas bonito. Cheguei à sala e vi o Manél e os restantes convivas e, raisparta a todos mais o modelito coisó-vírus, eu tinha dito que os queria elegantes e com estilo, e isso não se consegue nem com tactel nem com turcos. Contei até dez, respirei fundo e como ainda havia tempo resolvi tomar o assunto mas minhas hábeis e capazes mãos. Primeiro passo, aparar barbas e cabelos, algo que faço há mais de 30 anos e que já não têm segredos para mim. Pu-los em fila indiana e toca de dar um banho de elegância e charme a todos. É certo que nem todos podemos ser Adónis mas bonitos, mas ao menos sejamos arranjadinhos e penteadinhos. Do nada ouço gritos! Seria histeria normal de quem faz anos e já passou dos 40, seria alguma emergência de quem já passou dos 40?”Óhh mãeeee o teu genro cortou o pêlo aos bonecos do miúdo…”, “Raisparta Diogo, já é demais!” , “E largas os bonecos???” Já decidi, não lhe dou prenda, e vou ligar à Cláudia para ir à festa dela. Assim sempre aproveito o modelito…

Dia 22

Há noites assim, em que o facto de ser sempre sexta não ajuda. Nem dormimos, nem saímos de cima. Do sofá, claro, do sofá aproveito mais uma noite de insónia para melhorar a minha cultura, e não, os testes de QI do Facebook já não resultam, nem os que versam sobre marcas de automóveis e/ou de chocolates da infância. Depois de algum zapping, paro, estático e quieto no canal Discovery. A minha atenção vagueia entre forjar uma faca a partir de restos de metal (como os que vejo daqui do sofá ali no candeeiro da minha sogra), fazer prospecção de ouro (que automaticamente rejeito pela porcaria que se faz), ou procurar por vida inteligente fora deste planeta (o que me incomoda um bocadinho porque não gosto de obrigar ninguém a vir visitar-me). Era tudo Super interessante, e a forja não me sai da cabeça, mas acabei por me render a um documentário excepcional sobre aqueles grupos de música dominical que têm canções que se lidas ao contrário invocam o Satanás em pessoa, ou naquilo que ele quiser, que eu não sou pessoa de me impor. Mas que programa tão bem feito, que gente tão culta, que músicas tão agradáveis de ouvir, principalmente ao contrário, e que invocações tão autênticas. Senti-me até tocado por aquele lado mais sombrio da nossa alma, e até pensei. E se não fosse só nas músicas, e se nos jornais, se nos livros, se nos anúncios de rua também houvesse invocações desta ordem se lidos de trás para a frente? Resolvi investigar e muni-me de toda a informação mais fidedigna e completa, e ali estavam elas, directas e claras, e excitantes. Não resisti e, no calor da noite comecei a entoar os cânticos e as preces do alto da minha colina: “Sirene a liga, e camião o para salta! Rápido! Alarme o ouvem que assim saírem para! Preparados estar de têm Ana bombeira a e José! Bombeiro ser emocionante é!”…já me sentia a levitar, a entrar em transe, já ouvia vozes e chamamentos, sentia-me a passar de dimensão. “Óhh Diogo, são 4 da manhã caraças.”, “Tu sais da varanda que ainda acordas os vizinhos???, “Óhh mãe, o teu genro rasgou o livro do miúdo”. Voltei ao meu auto-isolamento espontâneo.

Dia 21

Hoje pouco dormi, mas foi uma noite fabulosa e bem informativa ao nível das questões primordiais da humanidade no geral, e da minha pessoa no particular. Em questão um programa fantástico de televendas, com certeza semelhante ao de tele-ensino criado agora para a clausura do coisó-vírus. Coisas interessantes, e muito úteis nestes tempos de algum tempo livre, pelo menos não fim-de-semana. Mas o mais importante foi mesmo o teste de ADN para procurar as minhas raízes neste mundo. Ainda mal refeito da emoção da apresentação em duas línguas onde diziam: “Vejam, eu vejo meu pai. Vejam, eu vejo minha mãe, e minhas irmãs e meus irmãos. Eis aí a linha do meu povo, de volta ao começo! Vejam, eles chamam-me. Eles deram-me um lugar entre eles, nos corredores de Valhalla! Onde os bravos podem viver para sempre!..” e eu vibrei, senti-me mesmo a precisar de conhecer a linha do meu povo, e de certeza que seria viking. Aliás, o meu gosto por facas, machados e espadas, juntamente com a minha barba tricolor com bigode à aviador já me deixava sonhar com o resultado. Levantei-me, liguei para o número do ecrã para aproveitar o bónus da moldura onde podia colocar as fotos dos meus novos parentes todos, e corri para a casa de banho, cortei um pedaço de barba, já que cabelo nem com teste de ADN se encontra, e cuspi violentamente para o ecrã do telemóvel, cumprindo as indicações da APP que aconselhavam na TV. O telemóvel ficou meio esquisito, mas dava para vislumbrar um gráfico que crescia, com cores e símbolos (se calhar cuspi demais, deviam informar melhor). Pouco depois chegava a resposta, e eu em pulgas nunca percebi para que serviam os pelos da barba, mas nem perguntei. E estava feito, um alarme soou, e como se fosse uma voz do além ouviu-se: “Óhh Diogo, o que raio fazes com a toalha do miúdo?”, “E que é isso nas cuecas? A faca do pão?”….

Dia 20

Já não sei o que pensar acerca deste coisó-vírus, mas parece que não gosta do calor, ou pelo menos é o que diz o meu teste de QI do Facebook em torno dos ícones pop dos anos do pop. Por outro lado, a maioria dos diversos grupos de apoio aos ignorantes do coisó -vírus diz que o melhor é o frio, porque o vírus não consegue pensar bem se estiver com frio. Bem, estou mesmo confuso, tal qual a Floribela quando falava com a mãe árvore como vi hoje na RTP Memória. De maneiras que não dormi nada, ora me tapava ora me destapava, mas sempre sem saber se não estaria a fazer pior. Ainda pensei ligar ao Manél, mas não eram horas para ligar a ninguém, e ele neste tema só tem ar na cabeça. Resolvi relaxar e pensar com clareza. O melhor era pensar numa estratégia para não dar nem frio nem calor ao raio do bicho. E é como se diz, a necessidade aguça o engenho, e neste caso a capacidade de criar soluções a partir de muito pouco, e eu não sou excepção e pouco tempo depois já dormia profundamente, certo da minha solução e satisfeito comigo próprio pela minha capacidade de lidar com as dificuldades. “Óhh Diogo, que raio fazes tu com o sofá na varanda?”, “Óhh mãeeee vamos sair com o miúdo.”.

Dia 19

Esta noite optei por me desligar de toda esta informação com que os sites de notícias como o Facebook nos encharcam e, porque no fundo eu sou um romântico, decidi procurar nesta cama de solteiro que tenho por televisão um filme daqueles do coração, fófinhos, românticos também. E se bem procurei, entre canais genéricos, de desporto, pornográficos, rapidamente encontrei. Ghost (“O Espírito do Amor”), o filme que conta a história de Sam Wheat, um banqueiro apaixonado por sua namorada, Molly. Em virtude de um assalto, ele acaba por ser morto, mas seu espírito não vai para o outro plano e descobre que Molly também corre perigo. Para salvá-la, Sam pede ajuda a uma médium que consegue ouvi-lo. Bem, não sei que vos diga, mas encheu-me o coração, e não só, de algumas vontades mais humanas e que nesta altura de quarentena também levam com algum isolamento. Pensei no filme a noite toda, e na mensagem profunda que aqueles actores nos passam, no amor que tem de existir, até fiquei com pele de galinha e, confesso, deve ter caído uma pequena lágrima, masculina claro. Mas dormi, dormi e dentro das curvas do meu ninho de auto-isolamento imposto espontaneamente pelo humor da Sofia, até dormi bem, e acordei refastelado e de espírito em paz e com vontade de procurar a minha mulher e fazê-la entender que apesar das suas atitudes, eu estou sempre disposto a dar uma mão, e a chamá-la para mim. Lembrei-me que podia utilizar os ensinamentos do filme para promover a aproximação e resolvi procurar barro e, do nada, criar uma roda de oleiro onde ela pudesse desabafar as mágoas da clausura. Estava tudo pronto, senti que ela acordava e sentei-me na roda de oleiro e de forma sensual e algo excitante comecei a moldar o barro esperando ansiosamente que a minha mulher percebesse a dica e se juntasse a mim, dedos entrelaçados, corpos colados numa verdadeira contravenção ao estado de emergência, a respiração já acelerada, as vozes roucas, o suor escorrendo na pele de galinha, os músculos retesados. “Óhh Diogo, valha-te Deus! Que raio fazes com a massa do pão?”, “Óhh mãe vou à padaria e já volto.” Sinto que estamos em sintonia.

Dia 18

Já vos disse que mesmo em frente ao sofá tenho uma televisão maior do que uma cama de solteiro? Penso que sim, mas acho que não vos contei que é tão grande que hoje à noite, visitando os museus online, quase curti com a Mona Lisa. Bem, na prática ela é que não tirava os olhos de mim seguindo-me para todo o lado. Resisti aqueles avanços, até porque na prática só estou no sofá porque me auto-impus um isolamento proposto pela Sofia e para lhe dar tempo para pensar na vida. Isto da quarentena não lhe está a fazer bem, digo-vos. Mas foi uma noite fabulosa, e o que eu aprendi de técnicas e materiais, de escolas e tendências, foi de tal forma que pensei cortar já a orelha ou outra parte do meu corpo. Bem a orelha não daria jeito neste momento. Já estou a ver os reparos da Sofia por andar com a máscara ao dependuro sem proteger a boca e nariz. Lá voltava eu à outra máscara que tantos pelos me tirou, raisparta. Mas voltando ao que aprendi, que foi tanto que me doem as mãos das pinceladas, os olhos da atenção necessária, passando toda a minha alma a para uma tela em branco, todo o meu ser em cada pincelada, cada mistura de cor… Foi uma verdadeira catarse. A noite foi longa, mas proveitosa, poucas horas de sono mas relaxantes. A única coisa que ouvi antes de voltar a aterrar no sofá foi a Sofia perguntar: “Mas que raio andaste a fazer com as canetas do Gaspar? Óhh mãe, o teu genro desenhou a parede toda.””.

Dia 17

Ahhhh, que grande noite de sono. Cada vez mais me sinto em casa no meu sofá, e as noites têm sido relaxantes. E ainda bem porque hoje eu e o Manél vamos preparar a festa surpresa da Sofia. Ela está bem a precisar de se animar porque anda de todo, e sempre a resmungar, mas deve ser da clausura e do excesso de distanciamento social. Faltam-lhe os jantares com a irmã e os festivais de cerveja, acho eu. Mas hoje tirei o dia para preparar a diversão, preparar o menu, convidar as pessoas para o House Party por causa do coisó-vírus, e pensar na imagem para o bolo. Ela gosta de bolinhas e coisas assim de miúda. Arranjo-me e digo ao Manél: “Às dez na esplanada”, e ele responde “Tá bein”, e eu lembro-lhe, “Leva máscara”, e ele, “Tá bein”. Peço um café, e um docinho enquanto o Manél não chega, e sento-me a ordenar as ideias para a festa. A Sofia está com o mais novo, e assim não descobre a surpresa. O Manél chega, atrasado, ou não fosse uma cabeça de vento, mas ao menos traz máscara. Queres um café? Pergunto eu. E ele “Tá bein”. Dez minutinhos de conversa de treta e passamos à organização. Começamos pela música, passamos pela ementa, e acabamos nos convivas, família e amigos, todos em videochamada, claro. Estamos nestes preparos quando ouço passos atrás de mim e de repente um “Oh meu deus. Óhh mãe, o teu genro está outra vez na varanda a falar com a luva!”. Era a Sofia, espero que não tenha estragado a surpresa…

Dia 16

Hoje acordei bem, e com um pequeno-almoço preparado no ninho. Estranho, será que faço anos? Não, já sei, a minha postura firme e de razão fez luz na cabeça e coração da Sofia, e ela deu por si a perceber que eu sou o seu pilar. Quer que eu desista deste meu auto-isolamento espontâneo e retorne ao leito matrimonial, aos prazeres carnais, aos mimos e festas. Mas eu não sou assim tão fácil e rebelo-me. Não, não | assim, não chega um pequeno-almoço servido no sofá para levar a melhor de mim, aqui ao leme sou mais do que eu, e na minha cabeça também. Peço-lhe que se explique enquanto dou uma dentada na torrada, e que boa que está, no ponto de manteiga, aquela com os cristais de sal que eu tanto gosto. Embargada, mas preocupada eu sei, afinal conheço-a há mais de 29 anos, diz-me só: “Hoje preciso que fiques sossegado, e calado. Por isso tens esta nova máscara anti coisó-vírus só para ti. Eu sabia, não consegue ficar longe de mim.

Dia 15

Já vos disse que mesmo em frente ao sofá tenho uma televisão maior do que uma cama de solteiro? Há dias, em pleno filme do Top Gun, quase quase me sentei em cima dela de tão real era o avião, não a actriz, o avião mesmo. Mas nem sempre vejo filmes, até porque ao final da noite o sono impera e mal posso esperar por me recolher no meu, como hei-de dizer, ninho. Mas hoje vi um programa fantástico sobre espeleologia. Grutas, mistérios, aventuras. Bem, sempre fui meio claustrofóbico, mas nada como experimentar até para sair do contacto do coisó-vírus. Procurei equipamento, calcei as minhas velhas botas de caminhada, quase novas e a brilhar, e procurei as grutas mais próximas para por em prática aquilo que aprendi num dos 300 canais de informação que existem cá em casa. Lá fui eu, todo ufano, certo da minha nova condição de espeleólogo, amador com certeza, mas espeleólogo. Por via das dúvidas levei uma merendinha para não ter de comer o braço como o rapaz do documentário, e além do mais com fome eu fico meio resmungão. Ai estes tempos modernos em que tudo o que se procura está à distância de um toque, e se é grutas que queres, é grutas que tens. Ali as tinha, mesmo à frente da vista, o coração palpitação de emoção, o cérebro pouco fazia de tanta adrenalina, fecho os olhos, inspiro fundo, cerro os punhos e, continuando sem pensar muito atiro-me de cabeça para a primeira gruta que me aparece. Tudo vai bem, apertado mas bem. Demoram, mas os olhos habituam-se à escuridão, os ouvidos tornam-se mais sensíveis aos sons de perigo, o tacto é fundamental, e mesmo o olfacto revela-se essencial, apesar de tudo cheirar muito mal. Sigo em frente, cada vez mais apertado, o cérebro em luta com o coração, a claustrofobia em luta com a aventura, o medo a sobrepor-se à razão e à formação…e eis que cedo. O meu corpo hirto mais não é que um futuro invólucro de uma alma gentil, sossegada, dócil e quase, quase, matéria para santo… Mas não, não vou sem lutar, lembro-me dos memes do Facebook e recito o mantra: “Hoje não, hoje não” e do fundo do meu ser sai um grito grave de socorro que percorre todos os túneis e galerias desta gruta. Ah, mas Deus existe e faz-se representar pela Sofia. Ao longe, do éter, ouço a doce voz da minha mulher, cada vez mais perto, cada vez mais perto…”Raios te partam, tu sais da caixa do miúdo?”, “Óhh mãe, o teu genro ficou preso nas caixas das garrafas.”.

Dia 14

Hoje acordei preocupado. Aliás mal dormi a noite toda com todas as informações e contra-informações que obtive consultando o site de notícias do Facebook. A reter o facto de estarmos em guerra de rolos de papel higiénico que se molham em álcool e se atira ao calhas porque como inimigo é invisível, não se vê. Mas não sei, não me soa bem esta desculpa da invisibilidade, e por precaução resolvi relembrar toda a informação e formação militar que possuo, e agora que consegui rever o Rambo, o Comando e um ou outro episódio de Duarte & Companhia, sinto-me mais que preparado para o combate. O mais importante é nunca denunciar a nossa presença, e com isso em mente camuflei-me e escondi-me no abrigo militar mais próximo, à espreita, atento, com álcool suficiente para assar os chouriços de todos os coisó-vírus que por aqui passem. E resultou, a minha camuflagem estava a surtir efeito porque ouvi o restolhar das folhas aqui em frente, e estava certo que ninguém me via ou ouvia. De repente o inimigo estava à minha frente, feroz, altivo, imponente, e eu debaixo da minha rede de camuflagem mantinha o sangue frio, o lábio superior hirto, o coração a meio gás. Do nada surge a investida…”Óhh mãe, o teu genro está dentro do armário das toalhas. “, “Tu dás comigo em doida”, e desapareceu. Não me mexi, eu sou uma pedra, um tronco, ninguém me vê.

Dia 13

Hoje acordei cansado, não do sofá mas de estar sempre a fazer os testes de QI do Facebook, e de ler as teorias todas acerca do coisó-vírus para estar informado de todos os cenários. Além disso começo a achar que as clausuras dos meus amigos são bem mais interessantes que a minha, o que não faz bem à auto-estima. Por isso resolvi voltar à forma antiga e conhecer pessoas ao vivo, pôr a conversa em dia, tomar um café, e discutir o coisó-vírus. Não era o único na esplanada, e entre um café e o jornal, conheci o Manél. Não tem muito na cabeça, mas não é mau gajo. Um pouco relaxado para mim, ou então não tem uma mulher preocupada como a minha que não o deixa sair de casa sem máscara. Ainda lhe comento isso, e o facto de a minha Sofia até ter um novo tipo de máscara para que eu esteja sempre em segurança. Ele diz: “Tá bein”, e eu não insisto, ainda agora começamos a falar e seria indelicado da minha parte. Falamos do tempo, do futebol, de política, e claro do coisó-vírus. Até que me diz que o mais difícil é mesmo o auto-isolamento que se auto-impôs para não aborrecer o seu par. Como o entendo. E continuamos umas horas a falar sem dar conta do tempo, até que ouço a voz da Sofia: “Tu não estás bem, estás a falar com quem?”, “Óhh mãe, o teu genro está a falar pró boneco!”. Olha, pelos vistos a minha sogra também o conhece.

Dia 12

Que rico dia está, o sol brilha, o vento é fraco, não está nem calor nem frio antes pelo contrário. Lembro-me das palavras sábias do meu amigo João Luís Ferreira “Os sinais são preocupantes. Penso que devias fazer um pouco de turismo para relaxar. Evitar infelizmente Itália e Espanha” e penso na capacidade deste homem de analisar a minha quarentena de forma tão correcta que até parece transmissão de pensamento. Mas se ele o diz, e eu confio, mais depressa me preparo para um bem merecido passeio de mota pela cidade deserta que é o Porto por causa do coisó-vírus. Mas, e isto é algo que todos os motociclistas sabem, tu nunca rolas sozinho. Rapidamente me vi acompanhado por diversos motards que, de certeza, usufruíam do belo dia como eu. E rolámos, rolámos, sempre em animação, com alguns dos compinchas a animar o passeio com as suas músicas, e luzes de cor, e a tornar um simples passeio de mota numa mostra de camaradagem e amizade. Liderava eu o grupo, quando decido voltar a casa e vejo que me acompanham. São motards, alinham numa mini com certeza. Faço sinal para que me acompanhem, e mesmo à porta de casa ouço a Sofia dizer: “Olá agente Santos, desde ontem…”. Fui buscar a minha mini, mas acho que os meus compinchas estavam com pressa porque rapidamente se despediram e partiram. Fui para o sofá, estes passeios deixam-me molengão.

Dia 11

Que bela noite esta foi. Dormi tão profundamente, aqui no meu auto-isolamento espontâneo no sofá que nem senti as horas a passarem. Se pensar bem nem sinto nada, nem as pernas, nem as costas, nem os joelhos. Estava tão bem disposto que recorri às redes sociais para coscuvilhar a vida das outras pessoas nesta altura de maior aproximação familiar e isolamento social. Foi bem educativo, se bem que preocupante. Temo que o meu bom amigo Jaime André ande a esquecer-se de quem é, mas eu estive lá para o ajudar. Também aproveitei para aprender as artes da pintura com o meu também bom amigo Paulo Routier. E que jeito que ele tem. Inspirado pelas suas obras, decidi aproveitar o tempo morto e dedicar-me à pintura da casa agora que está calor. Mas não sem antes pedir ajuda a um profissional, porque no campo da pintura eu é mais bolos. Escolhemos as cores, decidimos os padrões, preparamos a casa e atiramo-nos à tarefa o mais rapidamente que nos foi possível, até para fazer uma surpresa à minha mulher, que precisa de ânimo. Estávamos quase no fim quando ouço os passos da Sofia na direcção da sala. Já antecipava um sorriso e um beijo e, quem sabe, o fim do meu auto-isolamento espontâneo. Mas o que de lá veio até me gelou o coração. Não é que ela pega no puto e desata a barafustar comigo? “Mas que raio foste fazer agora? Estás doido, só pode! Óhh mãe anda ver o que o teu genro fez à parede da sala!”. Inspirei e expirei várias vezes, e decidi não dizer mais nada, acho mesmo que a clausura lhe está a fazer mal…

Dia 10

Hoje acordei tranquilo, sossegado, relaxado depois de mais uma noite de auto-isolamento em que privei a minha mulher da minha companhia e de algo mais, quem sabe. Acho que resultou, de manhã perguntou-me se não queria ir dar um passeio higiénico, ao que eu assenti de imediato até para esticar as pernas de estar num sofá individual. Para evitar contactos desnecessários com outros passantes em higienização, optei por me embrulhar em pelicula aderente, que se resulta para os congelados, dará para mim com certeza. Embrulhei-me bem, bem apertadinho e rapidamente me senti mais calmo, a respirar com mais suavidade, a relaxar a cada minuto que passava. Tanto que nem me lembro do passeio, só me lembro de estar de novo no sofá com a minha mulher a arrancar-me a película enquanto vociferava “Mas tu estás doido? Ainda sufocas com isso na cara. És pior que o teu filho de 22 meses…”. Não entendo, se eu não faço o que ela diz, resmunga, se faço resmunga na mesma. Esta quarentena vai ser longa, e eu já decidi, vou continuar no sofá. Espontaneamente…

Dia 9

A minha mulher queixa-se que eu faço tudo para sair de casa, mas eu na realidade acho que são ciúmes que eu vá tentar seduzir alguém aproveitando que tanto eu como a maioria das pessoas que aqui passam, ou são velhinhas higienizadas ou estão de máscara na cara. Desta vez não deu, tinha mesmo de sair, tinha de ir ao barbeiro mais próximo e resolver o meu problema. Tomei um bom banho, perfumei-me (porque isto de andar de máscara duplicou as minhas chances de ser bem sucedido, se bem que não ligo a isso e até já me retirei do isolamento auto-imposto pela minha mulher, o que me dá boas chances de voltar aos prazeres carnais), e ia mesmo a sair de casa quando da sala a minha mulher me chama. Não me despedi, lembro-me a tempo e volto atrás para um “até já amor, já volto e levo máscara”. De repente sinto um puxão na cabeça enquanto ela me diz: “o que raio fazes com o pente do meu pai colado à cabeça?”. Também lhe disse, com esse teu feitio volto a auto-impor o meu auto-isolamento quase voluntário no sofá…

Dia 8

Hoje acordei cedo com um propósito, ir à praia. Abstrair-me desta quarentena por causa do coisó-virús, e reforçar vitamina D do meu organismo. No meu caso o nível de vitamina D é proporcional ao tom de rosa a vermelho da minha careca, e restante corpo claro, ou não fosse eu nudista. Se bem o pensei, ainda antes do resto da família acordar, fiz-me à estrada e toca de tirar a roupa, besuntar-me de óleo como aprendi com o Alexandre Pereira e Marcos Praça, e espraiar-me como vim ao mundo deixando o sol cuidar de todos os centímetros do meu corpo, que não são poucos. E estava eu relaxado, já no meu lugar seguro e perfeito, sonhando com o dia em que volto à cama de casal (acabando assim com o auto-isolamento que me impuseram depois da cena da PSP), bem bronzeado, dourado pelo sol quando, nem sei bem de onde, uma gritaria imensa que parecia uma multidão à espera de ver os irmãos Carreira me desperta do sonho: “Tu queres vestir qualquer coisa que já me chegou a cena das velhinhas de ontem?”. Não há direito, se as velhinhas não podem ver um homem nu, porque vêm à praia?

Dia 7

Manhã de mais um dia, e apeteceu-me ir dar um passeio higiénico à rua. Bem, não me lembro bem se fui eu que quis, se a minha mulher que me explicou que seria melhor para todos que eu desse uma (ou dez), voltas ao quarteirão para que a casa arejasse. Preocupada com o meu bem-estar, e ciente que o coisó-vírus ataca as mucosas de um humano antropomórfico como eu, recomendou-me que me protegesse bem com máscara e luvas. Se bem ela o disse, e melhor eu o cumpri e fiz-me à estrada. Foi bom, o ar estava fresco, e senti-me a recuperar dos dias fechado em casa. A determinada altura fui parado e acompanhado por um par de agentes da PSP a casa, no meio daquilo que me soaram a gemidos… Não entendi o que se passou, mas segundo a minha mulher atropelei algumas velhinhas que se higienizavam também. Esta quarentena está a fazer mal a todos…

Dia 6

O dia ia bem, o ácido não me tinha carcomido totalmente o dedo polegar e eu ainda me sentia apto, apesar das dores excruciantes, continuava a realizar os meus afazeres de homem-da-casa. E não foi sem alguma surpresa que, enquanto mudava uma roda na viatura, vi a minha mulher dirigir-se a mim com um ar de fúria capaz de assustar o Rodrigo Guedes de Carvalho, desabando sobre mim com um: “Queres deixar o miúdo brincar com os Legos?”. Não entendo o que se passa, mas deve ser ressaca provocada pela quarentena. Ou isso ou pisou alguma pecinha espalhada pela sala…

Dia 5

Hoje o dia correu bem, e tirando ter um dedo com ácido peracético, a minha mulher providenciou para que eu estivesse seguro e tranquilo. Pelo menos ajudou-me a tratar desta maleita de forma profissional, humana e carinhosa e no fim até me disse que podia ir à rua com o cão. Só não percebi porque me meteu o dedo no ácido, mas com certeza foi para me manter limpinho e lavadinho, afinal eu só estava sossegado a rebolar-me no papel higiénico todo nu…

Dia 5

Hoje o dia correu bem, e tirando ter um dedo com ácido peracético, a minha mulher providenciou para que eu estivesse seguro e tranquilo. Pelo menos ajudou-me a tratar desta maleita de forma profissional, humana e carinhosa e no fim até me disse que podia ir à rua com o cão. Só não percebi porque me meteu o dedo no ácido, mas com certeza foi para me manter limpinho e lavadinho, afinal eu só estava sossegado a rebolar-me no papel higiénico todo nu…

Dia 4

Amigos, estou muito preocupado. A minha mulher passa o dia a resmungar, a revirar os olhos, e a dizer que está a dar em doida comigo. Não entendo, desde ontem que voluntariamente me auto-isolei no sofá, e não tenho sofrido mazelas. Acho que está com ciúmes e aborrecida por não ter cumprido os meus deveres maritais. Ou isso ou porque eu lhe disse que o cão não se passeia sozinho.

Dia 3

Voltei a sofre um acidente grave que quase me custou a visualização mais tarde do Top Gun em 4k (seja isso o que for e caso eu me aguente sem dormir). Minha mulher aborreceu-se com os meus lamentos, que classificou de ridículos. Penso que queria dizer mariquinhas, ou de miúda, mas há pessoas que podiam ficar ofendidas e ela é muito atenta a esses temas mais _______ (preencher conforme estado). Acho que hoje não cumprirei as minhas funções…